"Plantando as Sementes do Saber"


(Milton Marques Júnior)

"(...) tendo partido para as esferas espirituais, tenho certeza de que aqueles que se lembrarem de mim, o farão me chamando de professor, (...) não como “o eco particular do meu Destino”, mas com as obras plantadas pelos exemplos colhidos no curso vida e da profissão.



Discurso de Posse do Professor Milton Marques Júnior na APL

Os Professores e a Academia: Plantando as Sementes do Saber e da Criação

A Chegada

Chego a esta Casa. Aqui me encontro diante de todos vós. O desafio de chegar até aqui foi grande, mas não se resume a chegar. Chegar é só um passo dado diante do significado de ser acadêmico. A partir de agora, novos desafios acontecerão, pois cabe a todos os que fazemos esta entidade trabalhar em prol do conhecimento e revertê-lo à sociedade que a abriga. Assim, concebeu Platão a sua academia.

A Academia de Platão

A Academia de Platão foi fundada no século IV a. C., por volta do ano de 384, num bosque a noroeste de Atenas, e consistia numa associação exclusiva para aqueles que ali eram admitidos, ainda que não se pagasse nada para a sua admissão. O nome academia (a)kadh/meia) é proveniente do mitológico personagem, Academos ( )Aka/dhmoj), que teria indicado a Castor e Pólux, os Dióscuros, onde Helena se encontrava, depois de sequestrada por Teseu. Tendo resgatado a irmã, os dois irmãos e seus companheiros espartanos decidiram não incendiar o bosque, que passou a ser conhecido como “O Jardim de Academos”.

O objetivo da Academia de Platão era o ensinamento da ética e da justiça, segundo nos afirma Giovanni Reale, em sua História da Filosofia Antiga, volume III. Mais importante do que a sistematização de um saber científico, Platão vislumbrava a necessidade de se constatar a impossibilidade de a alma reconhecer a justiça sem ela mesma ser justa. Só com a alma constituída de bem, pela sua alta espiritualidade, é que se pode compartilhar esse conhecimento iluminado, diz Giovanni Reale, citando uma carta da velhice de Platão. Não é por outro motivo que, na República, a sua obra maior, Platão afirmar ser a justiça a virtude da alma (a)reth/n yuxh=j ei=nai dikaiosu/nhn, 353e).

Sim. A academia platônica era movida pela necessidade de saber, vez que o filósofo, como definia Sócrates, é aquele que ama saber, não aquele que ama o saber. Para Giovanni Reale, a academia platônica é o núcleo do que hoje se constituíram as universidades, local que deveria ser, por excelência, onde se realiza a busca do saber. As discussões na academia platônica variavam, abrangendo todos os temas: ética, política, astronomia, matemática, linguagem, literatura, natureza da alma, mas todos voltados para um único caminho – dikaiosu/nh, a prática da justiça –, sem a qual a sociedade tenderia a sucumbir. Como não ver por exemplo a discussão sobre o amor e a natureza da alma, no Fedro, ou a recusa de Sócrates de escapar da sentença de morte, por acreditar nos princípios éticos e no destemor da morte, sem os quais o filósofo não existiria, nem estaria no topo da reencarnação, como podemos ver no Críton e no Fédon? Como não entender a visão ética sobre a criação poética, que Platão definia como imitação, e que deveria ser cuidadosamente encarada quando levada às crianças, na República, cuidado que confundiu as pessoas, achando que Sócrates estava expulsando os poetas da cidade ideal que criava, quando na realidade estava salvaguardando a educação, paidei/a, sadia para as crianças, num Estado que deveria ser são? Como não considerar as discussões sobre inspiração e técnica, no fazer poético, que abrem espaço para as primeiras reflexões sobre a diferença entre doxa (do/ca), a opinião, e episteme (e)pisth/mh) o conhecimento, conforme se encontra no Íon?

Eis o espírito de uma Academia. Procurar amar saber, buscá-lo, investigá-lo, colocá-lo na ordem do dia e das discussões, para, a partir dele, pensar em uma sociedade justa. Esta é a ideia que encontramos embutida no brasão desta Casa – Decus et Opus, Honra e Obra. É através das obras que realizamos, que mostramos o que é a honra, virtude inseparável da justiça, que está na base da academia platônica, formalizada de modo inquestionável na Alegoria da Caverna: o saber afasta as sombras da aparência, ofuscando inicialmente quem vive nas trevas e exigindo um esforço de quem se propõe subir o íngreme caminho até a luz. Uma vez acostumado à luz, aquele que se coloca diante do saber tem a responsabilidade de fazer a descida para tentar resgatar os que ainda estão sob a opressão e as impressões das sombras. Esta nossa obra, esta nossa honra.

Meus Antecessores

Cabe-me, neste momento, dar uma palavra sobre os meus antecessores, nesta Cadeira de número 40, que logo passarei a ocupar.

O Patrono Cândido Firmino de Mello Leitão

Cândido Firmino de Mello Leitão é o patrono da Cadeira. Cientista, botânico e zoólogo, com ênfase na entomologia, mais especificamente nos aracnídeos, ordem da qual descobriu, nomeou e classificou perto de 70 espécies, como a Lasiodora Parahybana, tarântula descoberta em Campina Grande, em 1917. Professor e taxonomista, “um gigante que pode ser visto por diversos ângulos, como professor, conferencista, pesquisador, escritor de livros didáticos, historiador, biogeógrafo, escritor e quase poeta”. É o que diz Lauro Pires Xavier, no seu discurso de posse, ocasião em que se tornava fundador da Cadeira de número 40 (publicado em plaquete, em 1972, p. 20, acervo da APL). No mesmo discurso Lauro Pires Xavier o aponta como menino prodígio, tendo recebido o diploma de Doutor em Medicina, com a tese Da Polistease Visceral (p. 21).

Mello Leitão foi um dos criadores do Horto Botânico da Escola Normal de Niterói, por compreender que o ensino da História Natural deveria ser feito a partir de espécimes vivos (p. 23). Precursor da Ecologia, como um dos ramos da Botânica, em 1924, quando a palavra sequer havia sido dicionarizada, no Brasil – só o foi em 1928. (p. 24). Orgulho-me, portanto, de estar ocupando a mesma cadeira de Mello Leitão, professor do Museu Nacional, taxonomista respeitado no Brasil e no exterior, pelos seus estudos e descobertas.

O Fundador Lauro Xavier

Professor e ecologista “avant la lettre”, Lauro Xavier ocupou a Cadeira de número 40, de 1972 a 1991. Agrônomo, em 1933, pela Escola Superior de Agronomia e Medicina Veterinária do Ministério da Agricultura, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, ele foi um dos fundadores da APAN – Associação Paraibana dos Amigos da Natureza –, e um dos pioneiros na luta pela preservação da Mata do Buraquinho e das palmeiras imperiais da Lagoa.

Lauro Xavier não era só botânico, era sobretudo ambientalista, com vários títulos e artigos publicados. Desta Academia, pelo seu trabalho, ele recebeu a comenda “Ad Immortalitem”, em 1991.
Em seu discurso de posse nesta Casa, onde chega no ano de 1972, Lauro Xavier, a associa, de modo definitivo e inquestionável a si mesmo e Cândido Firmino de Mello Leitão, o patrono da cadeira que ora passava a ocupar, e seu professor na Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária do Rio de Janeiro:

“Quero dizer que tudo nesta casa, desde o nome Academia, significa ou simboliza a vida vegetal, pois sua origem vem do Jardim de Akademus” (p. 47).

No discurso de saudação, Osias Nacre Gomes afirma ser Lauro Xavier “feroz amante das árvores, das quais, com aplauso geral, se improvisou em Perpétuo Defensor” (p. 58). Trata-se de uma afirmação que transcende a mera retórica habitual nesses momentos; trata-se de fato inquestionável, devidamente documentado pelo nosso querido Gonzaga Rodrigues, numa crônica intitulada “A Falta que Lauro Faz”. Ali, Gonzaga lembra que Lauro Pires Xavier era professor que “não se limitava à sala de aula, ou melhor, não limitava a sala de aula às paredes de Areia ou do campus central. Exercia o ofício através das colunas que o jornal lhe franqueava. Estava sempre atento.”

Foi assim que a CHESF, diante do combate sem trégua de Lauro Pires Xavier, teve que contornar a Mata do Buraquinho, no momento da ampliação de sua rede de energia, quando o intuito era cortar a mata, “devastá-la pelo meio”, como diz Gonzaga, “para não gastar muito”. Arremata Gonzaga:

“Só a autoridade de Lauro, respaldada de todos os respeitos, demoveria a Saelpa de um general a mudar seus planos. Ele transferiu sua cátedra, sua pregação missionária para os jornais e rádios de então, e quem subir o Rangel, roçando a mata a sua esquerda, ainda pode ver a curva que a rede da Chesf descreveu para não tocar nesse marco que ainda distingue a cidade no cenário urbano mundial”.

Antônio de Souza Sobrinho, o mais recente ocupante

Antônio de Souza Sobrinho, professor, sociólogo, reitor da UFPB, realizou um a um os sonhos de seu tio Antônio de Souza, o “Titonho”, de quem carrega o nome, acrescido do epíteto “Sobrinho”: foi padre, estudou em Roma – Colégio Pio Brasileiro e Universidade Gregoriana –, foi professor e reitor, escreveu livros e entrou para a Academia Paraibana de Letras, ocupando esta Cadeira de número 40, sendo empossado em 1992, onde permaneceu até o ano passado, quando de sua partida para as esferas espirituais.

Professor de casa cheia, Antônio de Souza Sobrinho encantava o seu alunado com os seus conhecimentos de Sociologia e das experiências vividas ao longo do tempo. Perspicaz, via sempre na frente. Para dar exemplo de sua acuidade crítica, citarei uma passagem retirada de seu discurso de posse. Antônio de Souza Sobrinho, de modo sutil, ironiza o ativismo da Igreja Católica, proveniente do próprio Brasil e ganhando eco no exterior, com relação às queimadas da Amazônia. Tendo morado na Itália, ele acompanhou de perto, pelos jornais locais, as queimadas que se faziam na península, chegando à conclusão de que, com relação a seu tamanho, a Itália queimava mais matas do que o Brasil:

“Se você fizer os cálculos, medir o tamanho da Itália e a imensidão da Amazônia, o que eles ainda têm (pouquíssimo) e o que a Amazônia tem de sobra, verá que a Itália acaba queimando mais do que nós. Espero que o Papa leia também o jornal deles; porque os nossos – com nossas dores, erros, desastres, pecados e lágrima – a CNBB sempre se encarregou de traduzir e mandar no primeiro telex (hoje, “fax, diz Sobrinho) matinal” (Revista da Academia Paraibana de Letras, ano XLVI, nº 11, 09/1994, p. 188).

Eu diria que hoje, as notícias são enviadas pelo primeiro twiter matinal...

Em outro momento, Sobrinho critica “a apropriação e manipulação” de nossos recursos naturais, por parte dos estrangeiros, “a título de ‘AJUDA DESINTERESSADA’ (em caixa alta e entre aspas), por países detentores de tecnologia moderna, que vêm ameaçando patentear e lucrar com o monopólio de tal conhecimento” (id., ib., p. 190).

É isto que faz o professor. É esta visão que complementa o homem no professor, não se deixando levar pela razão de uma suposta autoridade.

É óbvio que aqui estou chamando a atenção para a acuidade crítica do professor Antônio de Souza Sobrinho, cujo discurso está longe de autorizar o menoscabo, o desprezo ou a destruição de nosso patrimônio ambiental. Como bom sacerdote que foi e como administrador de uma instituição importante, como a UFPB, ele constatou que é mais fácil observar o argueiro no olho do outro do que a trava no seu próprio olho. Acuidade crítica, repito, que o faz atual, mesmo passados 28 anos. Que o diga, como bem lembrou nosso confrade José Octávio de Arruda Mello, no discurso póstumo ao meu antecessor, a criação do Forum Universitário, no reitorado de Sobrinho, permitindo a discussão de importantes temas brasileiros e mundiais, trazendo à UFPB expressões ilustres da política e da sociedade brasileira, oriundas de vários cantos do país. Um professor, ainda citando José Octávio, a quem ser professor era o único título que lhe bastava.

Ser Professor e a Semeadura do Conhecimento e da Criação

Caríssimas Confreiras, Caríssimos Confrades, Minha Senhoras, Meus Senhores,
Quem são, pois, aqueles com quem tenho a honra de partilhar esta Cadeira de número 40? Dois biólogos, ambientalistas e ecologistas, e um sociólogo, cuja preocupação com o meio-ambiente também era uma de suas missões. Cada um dos meus antecessores nesta Casa, pertenceram antes a uma academia. Academias de ensino regular, como o são as universidades. Todos eram professores e a eles me junto, orgulhoso de minha profissão. Profissão que me moldou para chegar até aqui.

O convite para a minha posse nesta Casa acentua a minha condição de escritor. Sinto-me lisonjeado com esta deferência. No entanto, e meu caríssimo Damião Ramos Cavalcanti, presidente desta entidade não tome como crítica, sinto-me mais à vontade com ser reconhecido como professor. É nesta condição que entro neste sagrado recinto, como professor que sou e que serei, ainda que me aposente. É esta a condição essencial da minha vida, tudo o mais é transitório. Ter escrito alguns livros faz parte dessa condição essencial.

Digamos que o escritor seja uma consequência do trabalho que desenvolvi nos últimos 43 anos e que me concedeu o lastro para ser aceito por aqueles que sufragaram o meu nome, quando da ocasião da eleição para a Cadeira de número 40. Cadeira que passarei a ocupar como muito orgulho e com muita responsabilidade, por vir de um professor que conheci pessoalmente, e de mais outros dois de cuja existência tomei conhecimento.

Entro nesta Casa, sob os auspícios também de dois outros grandes professores, Coriolano de Medeiros, e o seu maior integrante, sem demérito para ninguém, o poeta Augusto dos Anjos.

Foi criança, com 11 anos, em 1968, que, pela primeira vez, entrei em uma Casa fundada por Coriolano de Medeiros, a Escola Industrial Federal da Paraíba, antes Escola industrial Coriolano de Medeiros. Escola que foi uma segunda casa para mim. Hoje, aos 63 anos adentro em outra casa fundada por Coriolano de Medeiros, em 1941; esta veneranda Academia Paraibana de Letras, que, como lembrou a professora Ângela Bezerra de Castro, que há de fazer a minha saudação, abriga 4 egressos da antiga Escola Industrial: o seu fundador, o já citado Coriolano de Medeiros; o seu diretor, Itapuan Botto Targino; uma de suas mais dedicadas professoras, a própria Ângela Bezerra de Castro, e um de seus alunos, no caso eu. Como não me orgulhar de ser professor e de pertencer a esta Academia se, quando olho para trás, vejo o perfil altaneiro dos que aqui chegaram antes de mim? Não é à toa que o verbo respicio, em latim, significa olhar para trás ou olhar de novo. A palavra respeito, respectum, supino desse verbo, significa exatamente isto: olhar para trás e considerar o que lá existe e que há de nos servir de lição.

Quando, há dois meses, fui entrevistado pelo meu querido confrade Abelardo Jurema Filho, levei alguns livros de minha autoria para mostrar-lhe. Um deles era um livro de epigramas, poemas irônicos e satíricos, curtos e incisivos. Na ocasião, Abelardo me perguntou se eu também me considerava um poeta. Respondi-lhe que não. No máximo, era um versejador irônico. Poderia ter dito, se não estivesse premido pelo tempo: a única coisa que me define é ser professor e foi na Escola Industrial que tive a consciência de que não queria ser mais nada a não ser professor.

O segundo professor, sob cuja inspiração ligo-me definitivamente a esta Casa é, como já falei, o poeta Augusto dos Anjos. Augusto é, sem nenhum favor, o maior poeta brasileiro e um dos maiores do mundo, sem desdouro para os demais. Apenas precisa ser mais lido e menos maltratado. Esta casa, que se situa no entorno de onde o poeta morou – “Número centro e três. Rua Direita”, como diz o verso inicial de “Noite de um Visionário” –, deveria ser, por excelência, o lugar de sua veneração. Assim como na pequena cidade de Aix-en-Provence, no sul da França, os passos de Paul Cézanne estão eternizados no bronze fixado nas ruas e calçadas por onde passou, assim deveríamos fazer com o nosso poeta; assim como Cézanne pintou exaustivamente a montanha de Santa Vitória e a eternizou em quadros disputados a peso de ouro pelos marchands e museus, assim a obra do poeta deveria ser avidamente procurada e estudada. Infelizmente, para muitos seus passos estão apagados, ainda que ele tenha morado no entorno desta Academia; sua obra, por outro lado, não se encontra com facilidade nas livrarias. Que livraria francesa não disporá dos livros de Victor Hugo? De que livraria portuguesa Camões estará banido? Como não encontrar Cervantes, na Espanha ou Dante, na Itália?

Tenho, no entanto, a convicção de que poderei, juntamente com os minhas futuras confreiras e futuros confrades, trabalhar para a imortalidade do poeta, não a imortalidade fátua, mas a da sua lembrança perene e sempre renovada, através da leitura e do estudo de seus poemas. É este o sentido maior da Academia, de cuja cadeira número 1 o poeta Augusto dos Anjos é o patrono: lutar para que a Morte exerça um ódio vão contra a Arte, para que os sáxeos prédios não sejam tortos, para que não mais tenham o aspecto de edifícios mortos, para que, enfim, não se decomponham desde os seus alicerces, conforme antevê o poeta em “Os Doentes” (versos 415-418).

A Semente do Tamarindo de Augusto

Todos vós haveis de estar vos perguntando o que faz este vaso com uma singela planta na mesa de cerimônia desta posse. É um tamarindo. Ainda frágil, mas não é um tamarindo qualquer. É um tamarindo que brotou de uma semente de uma vagem colhida embaixo do tamarindo de Augusto dos Anjos, na casa em que o poeta nasceu e morou, e debaixo de cujos galhos, “como uma vela fúnebre de cera”, compôs a beleza jamais inigualada do Eu e os demais poemas. Que a “paleontologia dos carvalhos” aqui remoçada em novo broto cumpra a profecia do poeta. Quando o poeta junta o carvalho de seu sobrenome com o da planta de que o tamarindo é irmã, numa taxonomia cara a Cândido Firmino de Mello Leitão, não se trata de puro jogo de palavras como alguém poderia supor, mas de uma consciência ecológica, que certamente agradaria a Lauro Xavier, e, mais do que isso, a consciência da evolução das espécies. Somos todos – animais, vegetais, seres humanos, a química das rochas – parte de um uno, saídos da “evolução orgânica da argila” (“As Cismas do Destino”, verso 380), que só se divide para compor o mundo, mas que não pode ser ignorada em suas partes. Como pensava Lauro Xavier, agredir o meio ambiente é agredir a nós mesmos. O poeta pensava igual, no respeito que nutria pela natureza e pelos homens.

Trazer uma muda de tamarindo para ser plantada nesta Academia Paraibana de Letras é, para mim, de uma simbologia inefável. Não é só uma árvore a mais que se planta. É a reencarnação do poeta na sua germinação e floração, nos dizendo para como homens não sermos aquela “árvore sem fruto”, de que ele nos fala em “As Cismas do Destino”. Esta Casa tem a missão de plantar e disseminar a cultura, lembrando que o verbo colĕre, de que provém a palavra cultura é, no latim, de origem agrícola, passando logo a seguir a significar todo o tipo de cultivo: do campo, dos deuses, da amizade, do espírito, da intelectualidade. Assim, com este tamarindo, estamos plantando, simbolicamente, a cultura e a humanização, de cujas sementes sairão o nutriente das futuras gerações, que não deixarão morrer o poeta e o que ele representa para nós. A paleontologia dos carvalhos une, portanto, Augusto e o tamarindo, e nós a eles. Com a floração desse novo tamarindo, que deverá crescer nesta Casa, e as ações que deveremos fazer para a sua perpetuidade, cumprir-se-á a profecia do poeta: “Não morrerão, porém, tuas sementes, por que depois da morte ainda teremos filhos”.

Conclusão

Assim, Caríssimas Confreiras, Caríssimos Confrades, Minhas Senhoras, Meus Senhores, não foi a transitoriedade que me pôs aqui – sic tansit gloria mundi, dizia o poeta mantuano, autor da Eneida –, mas a minha condição definitiva, escolha ainda criança, dessa que considero a profissão mais importante de nossas vidas – ser professor. Vivo, sou chamado de professor; tendo partido para as esferas espirituais, tenho certeza de que aqueles que se lembrarem de mim, o farão me chamando de professor, não de escritor, fazendo-me permanente pela memória. Não como “o eco particular do meu Destino” (“As Cismas do Destino”, verso 248), mas com as obras plantadas pelos exemplos colhidos no curso vida e da profissão, “A minha sombra há de ficar aqui!” (“Debaixo do Tamarindo”).

Muito obrigado.


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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