"madrugadas de outrora"


(Sérgio de Castro Pinto)

improviso

omoplatas já foram asas
nas madrugadas de outrora
hoje são asas amputadas
cravadas nas minhas costas

omoplatas já foram asas
de um rebelde querubim
que me deixou ao deus-dará
nas planuras longe de mim

omoplatas já foram asas
deste que hoje vos fala
convertido em espantalho
da espécie mais chinfrim
desses com medo de pássaros
antípodas do querubim
com os corpos recheados
de feno palha e capim

omoplatas já foram asas
nas madrugadas de outrora
hoje são muletas mancas
fincadas nas minhas costas.



Exílio

desarvorada,
a madeira
do móvel
desata
os seus nós e estala

a árvore que foi (no exílio da sala).



Antigamente

urgente
só o telegrama
aberto

prego a prego
pouco a pouco
espécie de ataúde
onde dentro
estivesse um morto



aspirador

tamanduá do lar
que aspira os meus dias
convertidos em pó

dias enfileirados
um a um tombados
pedras de dominó


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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