Revolução Pacífica e Silenciosa


(Milton Marques Júnior)

Já conhecemos um pouco o perfil do monsenhor Myriel Bienvenu, bispo de Digne. Na criação de Victor Hugo, para Os Miseráveis, mais do que um justo, o monsenhor era um santo, ainda que assim não se considerasse, claro.

Criando duas vacas, na nova morada – o antigo hospital, que já não comportava os doentes da cidade, os quais ele alojou no palácio do bispo, por ter mais espaço do que ele precisava –, monsenhor Myriel destinava metade do leite diário ordenhado para os doentes, com a consciência de que pagava, assim, o seu dízimo – “Je paye mon dîme” (Parte I, Livro I, Capítulo VI).

As atitudes do monsenhor Myriel demonstram claramente como as instituições sociais, religiosas ou leigas, cometem habitualmente erros gritantes, verdadeiros disparates, para atender luxos e comodidades não condizentes com as urgentes questões sociais. O palácio destinado ao bispo é um imenso espaço sem utilidade prática, que não seja o triunfalismo ostentatório da Igreja, enquanto o hospital municipal dispõe de pouco espaço e de parcos recursos. Por outro lado, o dízimo pago pelos fiéis, só revertendo para o lado da magnificência material da Igreja, tem destino semelhante aos impostos pagos pelos cidadãos, mal empregados, de modo contumaz, pelos poderes públicos.

Monsenhor Myriel é um revolucionário não das palavras ocas e fáceis, mas da ação transformadora, pacífica, silenciosa, sem alarde, sem gritos e sem holofotes, invertendo uma lógica cuja irracionalidade não é fácil de perceber, porque óbvia: renuncia ao palácio do bispo e ainda paga o dízimo aos pobres, recebendo a todos, sem distinção, sem discriminação, sem querer saber o nome ou a origem. Ele parte do princípio de que se alguém o procura é porque necessita de auxílio. A vida do monsenhor Myriel é um retrato fictício, é bem verdade, mas não deixa de ser plausível, pois é a vida de quem vive o Evangelho e não apenas o prega, tomando como base dois lemas (Parte I, Livro I, Capítulo VI):

“La porte du médecin ne doit jamais être fermée; la porte du prêtre doit être toujours ouverte.”
(A porta do médico não deve nunca estar fechada; a porta do padre deve sempre estar aberta.)

Ne demandez pas son nom à qui vous demande un gîte. C’est surtout celui-là que son nom embarrasse qui a besoin d’asile.”
(Não perguntem o nome a quem lhes pede um abrigo. É sobretudo aquele, cujo nome é motivo de embaraço, que tem necessidade de asilo.)

O monsenhor Myriel Bienvenu, bem-vindo como o seu sobrenome insinua, sendo um digno bispo de Digne, numa onomástica perfeita usada por Victor Hugo, dá lições práticas aos poderes públicos e à Igreja de como se deve tratar com dignidade os necessitados, tornando-os bem-vindos ao seio de Deus e da sociedade, sem distinções e, sobretudo, sem propaganda.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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