Línguas


(João Batista de Brito)

Diz o calendário que dia 21 de fevereiro é o Dia Internacional da Língua Materna. Se há fundamento nisso, não sei, mas, se houver, este seria o dia de todas as línguas do mundo, pois cada língua isolada é mãe de uma raça inteira.

E raça, a gente sabe, é um bichinho etnocêntrico que acha belo o que possui e o resto... bem, o resto seria feio.

Foi nesse defeito etnocêntrico que Edgar Allan Poe se baseou pra escrever o conto “Os crimes da rua Morgue”.

No conto – vocês lembram bem - o terrível assassinato só é desvendado pelo astuto detetive Dupin a partir dos depoimentos dos hóspedes do hotel. Esses hóspedes, estrangeiros de países diversos, afirmam, cada um a seu turno, ter ouvido, na noite do crime, uma voz se expressando em língua alheia à sua. Um alemão diz que ouviu francês, um francês diz que ouviu italiano, um italiano diz que ouviu inglês, etc.

Ora, ao ser desvendado o caso, fica-se sabendo que quem matou a pobre moça foi, na verdade, um orangotango, e, portanto, o que os hóspedes do hotel ouviram eram grunhidos do animal enfurecido.

E por que atribuíram a línguas estrangeiras? Simples: por motivos preconceituosos, ou seja, porque cada um deles achava muito feias as línguas alheias, as que supunham estar ouvindo. E foi justamente esse princípio da – digamos assim – “etnofobia” que ajudou Dupin no desvendamento do acidente.

Sempre me intriguei com o conto de Poe, e relembrei-o agora por causa da data.

Afinal de contas, a língua materna é bela e as alheias são feias – será que é assim mesmo?
Não que o conto de Poe seja inverosímil, mas eu, pessoalmente, acredito que toda língua é bela, e se a gente não acha é por causa de nosso intrínseco etnocentrismo. O russo, o chinês, o sueco, o tupi-guarani me parecem esquisitos, mas, creio que tenham lá suas belezas, que meu ouvido etnocêntrico não está apto a captar.

Aliás, nós, brasileiros, temos orgulho em afirmar que o Português é belo, mas, a rigor, a língua mais difícil de ser esteticamente julgada é exatamente a materna, pelo simples fato de que, falantes nativos, temos dificuldade de apreciar sua eventual musicalidade, sejam quais forem suas qualidades estéticas.

Vejam bem. Ao ler em voz alta que minha língua é a “última flor do Lácio, inculta e bela, és a um tempo, esplendor e sepultura, ouro nativo que ganga impura a bruta mina entre os cascalhos vela” fico confiando que Bilac tem razão, que o Português é mesmo lindo, e tudo mais... Mas é quase uma questão de fé. E, na minha impossibilidade de julgar, imaginando como será que o Português soa pra um ouvido estrangeiro.

Uma vez, tive um depoimento que quase valeu. Com bolsa de pesquisa da Fulbright, eu estava residindo nos Estados Unidos e, como o alojamento de minha universidade fechou para férias, fui morar por uns tempos com um amigo brasileiro, de Minas. Um certo dia, estávamos nós, digo eu e meu amigo mineiro, fazendo a feira da semana, num pequeno supermercado de Bloomington, Indiana. Discutíamos à vontade sobre o que levar, ou não levar, talvez falando um pouco alto. Na hora do pagamento, a moça do caixa, muito sorridente, nos disse que “your language is very beautiful”. Ficamos alegres de saber que uma americana achava bonita a língua portuguesa, mas só ficamos até certo momento, pois logo ela acrescentou que sempre achou o “francês” uma língua muito bonita.

Tudo bem, não era francês que falávamos, mas o amontoado de sons que a moça americana ouviu, ela achou bonito, e suponho que isto vale.


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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