"A crítica literária ilumina texto e leitor"


(Ângela Bezerra de Castro)

Existem obras literárias que formam com a crítica e a história espécie de conjunto a que recorre o leitor, em seu esforço interpretativo, com férteis e valiosos resultados. Esse conjunto se constitui, por assim dizer, em etapas interdependentes e harmoniosas, de modo que as tantas possibilidades ou estágios de leitura complementam e aprofundam o entendimento da realidade da ficção.

Assim, na avaliação da crítica, a obra se desvela; enquanto a palavra da história, fundamentando-se em conclusões críticas reveladoras, recusa a exclusividade ou supremacia dos fatos externos. Não é que inexistam conflitos neste percurso. Pelo contrário. Eles cumprem aí seu papel, garantindo os confrontos, a pluralidade que somente enriquece o ângulo de visão. Assegurado o julgamento, na amplitude da perspectiva. Iluminados o texto e o leitor.



Na perspectiva de Goldmann, isto é, considerando a relação entre o romance moderno e a totalidade social, Alfredo Bosi propõe quatro tendências pelas quais é possível distribuir o romance brasileiro moderno: romance de tensão mínima, de tensão crítica, de tensão interiorizada e de tensão transfigurada. O segundo tipo define-se como aquele “em que a tensão atingiu ao nível da crítica, os fatos assumem significação menos "ingênua" e servem para revelar as graves lesões que a vida em sociedade produz na pessoa humana: logram por isso alcançar uma densidade moral e uma verdade histórica muito mais profunda. Há menor proliferação de tipos secundários e pitorescos: as figuras são tratadas em seu nexo dinâmico com a paisagem e a realidade sócio-econômica (Vidas secas, São Bernardo, de Graciliano Ramos), e é dessa relação que nasce o enredo.



A Bagaceira - “um grito de justiça!”

Considerando-se os elementos integrantes da estrutura narrativa, torna-se inadmissível identificar com a seca a temática do livro de José Américo de Almeida. Quando isto acontece, é porque fica ignorado o outro lado da antítese: o meio físico e social que a bagaceira personifica. Em destaque a partir do título. Comprometendo-se com esta mutilação o entendimento da própria ideologia do romance.



Desmistificando a seca, o romance paraibano encontra sua força de denúncia na ironia do contraste estabelecido entre a "natureza privilegiada" do brejo e a degradação humana. Vinculando-se o estado degradado à estrutura moral e sócio-econômica que a bagaceira personifica. Nesta perspectiva, a funcionalidade da paisagem não deixa margem a que se confunda sua exuberância com o descritivismo de efeito meramente pitoresco. Pois, além de tornar mais chocante a miséria humana, "a verdura perene" desmascara a face desértica forjada como identificação do Nordeste, em decorrência da ação dos "exploradores das secas". Em tais circunstâncias, o paisagismo de A bagaceira se faz intencional recurso expressivo no sentido de superar a falsa imagem dos problemas da região, "cujas reais possibilidades de desenvolvimento passaram a ser subestimadas, falando-se na inevitabilidade de seu progressivo abandono".

(Excertos de Re-leitura de A Bagaceira)



Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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