Verdades e saberes


(Ângela Bezerra de Castro)

Nem sempre as homenagens referendam um merecimento. Com muita frequência, a motivação para que elas se efetivem é tão exterior, tão circunstancial, que fica difícil estabelecer o nexo entre a distinção e a história de quem a recebe. Assim, algumas homenagens tornam-se gestos desfigurados pela impossibilidade do convencimento e da emoção.



Quando o tema são homens de letras, existe um lugar-comum que parece não ser possível evitar. A constatação de um largo descompasso entre o valor que eles representam para a sociedade e os gestos que exprimem a consciência e o reconhecimento desse valor.

O grande silêncio da Paraíba em relação à memória do professor Juarez da Gama Batista é mais um exemplo a confirmar esta generalidade. Tem a mesma natureza do abandono a que está exposto Augusto dos Anjos, esculpido em bronze, mas afogado no lixo, atropelado pelos camelôs da Lagoa. São aspectos ostensivos do permanente descaso pelo essencial, a refletir a inversão das hierarquias verdadeiras. O velho "desconserto do mundo".



De que outra maneira é possível compreender que instituições, cujos objetivos incluem a preservação da memória cultural, sejam completamente omissas em relação a nomes fundadores de sua própria História, senão admitindo a predominância de uma ordem valorativa equivocada?



Ao estilo e à erudição é preciso acrescentar ainda a ousadia, característica indispensável a todo criador, atitude sem a qual deixariam de existir o novo e o original.



Odilon Ribeiro Coutinho dedicava-se habitualmente a elaboração de textos que eram trabalhados com rigoroso perfeccionismo, em busca da sintaxe, da imagem, do ritmo, da palavra cabível, enfim, dos recursos de expressão que correspondessem ao apurado conceito de forma, que orientava sua consciência crítica. Sem nenhuma dúvida, é de um escritor que estou falando. Do verdadeiro escritor, "que põe o pulsar e o calor de suas veias nas palavras com que fia a túnica diáfana e inconsútil de seu pensamento; e instila, no verbo que se faz carne literária, o seu próprio sangue e as emoções, delírios e fantasias que jorram das fontes interiores de sua vida."

(excertos de "Um certo modo de ler")


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
RECOMENDE AOS SEUS AMIGOS
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

0 comentários

Postar um comentário

Deixe o seu comentário