Toque de Silêncio


(José Leite Guerra)

O silêncio responde à indagação sobre os antepassados. Eclode uma curiosidade envolvente, quando percebemos o vácuo dos parentes (próximos ou distantes), amigos, vizinhos, enfim pessoas de antecedentes partidas.

Estarão num onde ou em si mesmos? Para os que aderem ao Futuro Definitivo, medram folículos de esperança adornados por flores que se rasgam dentro do coração. Quando passamos por estradas, em viagem, nada mais emocionante do que os túmulos de beira de estrada. Ali, sob as cruzes simples, está o início, o desmoronamento, a solidão.

Adornadas e mostrando tocos secos e apagados de velas, testemunham a fé ingênua, porém autêntica, na realidade escondida, no mistério desafiante. Não são os mausoléus monumentais semeados nos cemitérios capazes de concorrer em expressão de pureza com os pequeninos sarcófagos de chão, espalhados na extensão das rodovias. Estes exprimem a pascalidade honesta da vida submissa ao trânsito inevitável.

Estive olhando as fotos daqueles que nos precedem. Pensamos que jamais irão, perderão o embarque, e torcemos para eles ficarem eternamente conosco. Quando crianças, então, nem suporíamos tal possibilidade. Mas temos de ser firmes e estarmos preparados.

Esta vida é estágio, oportunidade para crescermos, amarmos o semelhante, o próximo, convivermos sob a luminosidade, socorrermos as necessidades de quem nos estira o sinal de suas dores físicas ou não.

Morre antes quem não se desloca de seu trono confortável e segue em direção aos pobres, aos carentes, aos que clamam por uma palavra de carinho, compreensão e apreço. Como manchamos o sentido da vida!

A violência e desrespeito para com o irmão, o preconceito assanhado a tentar diminuir a condição humana das diferenças, o orgulho e vaidade como se tudo fora permanente. Mero engano!

Neste Finados, vale uma reflexão sobre o mistério da vida/morte. Nem tudo está perdido: despontam, a cada dia, os sinais de imortalidade, de continuidade, de transcendência: não os enxergam os cegos de espírito ou enganados pelas limitações mundanas.

Não falei em religião, nem em correntes antagônicas (a propósito) – nós, humanos, temos o discernimento suficiente para as escolhas e posicionamentos diante do Criador. Acima de tudo está a Vida, o senso humanitário, a nudez de quaisquer confrontos.

Após as lágrimas, jorram sorrisos. A lápide não é a última página. Muita claridade precisa chegar para nos curar a cegueira. Amemos a vida límpida como um regato tranquilo a correr infinitamente e sem foz. Há uma faísca de fé em cada suspiro de Amor. Mesmo em quem duvida.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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