"Nos braços de Morfeu"


(Chico Viana)

Essa história aconteceu no tempo do ronca. Conta-se que um mancebo sem eira nem beira propendia a namorar uma donzela de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.

O moço intentava convolar de estado civil — mas como, se mais parecia um mequetrefe?

O pai então lhe lançou um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

— E o que devo fazer? — quis saber o rapaz.

— Deves dar-me a prova de que tens futuro.

Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda. Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.

Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução: ”Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos, viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

— Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

— Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? — gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.

— Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – observou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ao mesmo tempo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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