Paixão


(Cristina Porcaro)

Você já tentou abrir a tela vazia do seu computador e se determinar a escrever qualquer coisa, algo simples, coloquial, besteiras de amor, paixão ou olhares que lhe fugiram?

Não é tão simples assim. Você escreve, apaga, torna a escrever, apaga e nestes infinitos gestos vão-se os minutos, os segundos e acaba a primeira hora.

Você busca aqueles pensamentos que lhe assaltavam, os pensamentos que até há poucos instantes habitavam em você. Nesta hora, descobre que o vazio fez um ninho e embaraçou sua mente.

Eu só queria escrever sobre a alegria de viver, mas, hoje em dia, com tanta dor sendo disseminada, com tantos desacertos que não levam a nada, acabo pensando na loucura deste existir.

Seria tão simples escrever sobre o casal que hoje estava na fila do supermercado, os dois se sentindo sozinhos para viver a paixão que os acometia. Mesmo com a fila do caixa estando enorme e homens impacientes abrindo latas de cerveja com sofreguidão por ser tarde de sexta-feira, ainda assim os dois se embeveciam com os próprios segredos, com toques sutis para se sentirem. O mundo deveria ser habitado somente por apaixonados e tudo estaria resolvido.

A poucos centímetros de distância dos dois, finjo-me de surda e cega enquanto minha vontade era a de olhá-los e captar um pouco daquela felicidade pequena. A certa altura, ele a chama de amorzinho, assim no diminutivo e eu sorrio, impossível não participar daquele momento. Pago minhas compras, pego as sacolas e ainda me viro para vê-los uma última vez.

Só agora, enquanto escrevo, percebo que a vida ganha diversa significância quando você tem outra mão a amparar a sua, outro coração a bater junto ao seu. Só o calor do amor pode romper as peles que formam muralhas em seu corpo.

Mas, neste meu momento, o silêncio é denso, o ar condicionado gela meus pés, e só me resta ocupar o tempo tocando com delicadeza estas teclas. Me atento às palavras, com os pontos e vírgulas e com a fluidez do que aparece para escrever.

Deixo a nostalgia de lado e continuo a vida abusando das horas, reparo que é madrugada e que estou feliz nesta simplicidade cotidiana onde sou dona do meu espaço, do meu tempo, dos meus caminhos, das minhas verdades.

A paixão? Ficará aguardando outra história, outras paisagens para acontecer, sem determinar origem, extensão ou peso. Sou uma simples viajante de olhar atento, pronta para captar a realidade esplendorosa e inesperada do mundo.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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