O Demônio do Meio Dia


(Ana Adelaide Peixoto Tavares)

Há algo de ausente que me atormenta (Camille Claudel)

Esse é o título do livro de Andrew Solomon sobre Depressão. É um livro referência para esse estado d´alma que se tornou a epidemia do século XXI. Mas não só.

Um tema tabu e que viveu às escondidas, hoje se abrem os véus sobre a do-ença. Perde-se o medo e o pudor de se falar sobre os transtornos de ansiedade e outros picos esquisitos do ser humano. Vi um domingo desses o Dr. Dráuzio Varela em um quadro do Fantástico – Não tá tudo bem, mas vai ficar. Entrevistando famosos e anônimos, que falavam das suas experiências na outra margem do rio. Uma tentativa de mostrar que esses transtornos acometem a todos. Falar é preciso!

A reflexão sobre a melancolia remonta à antiguidade. A palavra vem do grego melankholia e significa bílis negra literalmente. Uma substância do corpo e que em excesso, provocaria uma desordem nos pensamentos. A questão da bílis negra, dos humores e dos seus componentes (sangue, bílis amarela e a pituíta), fazia da melancolia, antes de tudo uma questão biológica. Somente na era moderna, ela vai ser compreendida como uma doença da alma.

Muitos filósofos escreveram obras sobre a depressão. Freud, Luto e Melancolia, para falar do estado melancólico como estado doloroso, de suspensão de interesse pelo mundo externo e depreciação do sentimento de si. Também O mal-estar da Civilização, sobre a dificuldade do homem para ser feliz. A escritora búlgara/francesa Julia Kristeva, Sol Negro – Depressão e Melancolia, argumenta sobre o desamparo. O filósofo, Schopenhauer, Dores do mundo: “a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão”. E Soren Kierkegaard, O conceito de Angústia – fala do “nada” que nos atormenta. E a nossa Adriana Falcão define melancolia como “uma valsa triste que toca dentro da gente de repente”.

Eu Já tive Depressão! Sei que ela não tem cura, mas a minha experiência, embora extremada, foi pontual. Em ocasiões limites abissais da vida, e por isso, falo no passado. Mas é preciso estar atento e forte! E tomar as nossas precauções.

Primeiro, tive síndrome do pânico. Ainda não conhecia o nome, nem a síndrome. Foi certeira. Muito jovem enfrentava as primeiras perdas do amor e da vida. E o mundo ruía aos meus pés. Sentia-me pequena, frágil e envergonhada. Com uma sensação infinita de fracasso.

Depois tive tudo elevado aos cubos quando viajei para estudar/morar na Inglaterra por quase um ano. Deixara um filho pequeno com menos de três anos, e, sentia-me outsider, diferente, melancólica e triste. Procurei ajuda médica e enfrentei a escuridão. Difícil? Inimaginável.

O pânico teve o seu auge com a doença e morte do meu pai. E aí veio depressão mais profunda. O acordar era sem perdão. Um dia todo pela frente! E entrei no pavor. Fui ler sobre o assunto (Perto das Trevas de William Styron) e procurar ajuda profissional que tenho até hoje. O tempo? Uma abstração em momentos extremados de dor e sofrimento.

Aprendi a me observar, respeitar meus gatilhos, contemplar, perambular, criar tempo para mim, me cuidar, e ler Mulheres que Correm com os Lobos. Sim! e tenho a alegria como norte, mesmo quando a valsa triste toca.


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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