"Quatro cristais"


(Sérgio de Castro Pinto)

sem fórmula

não piso a embreagem,
piso a paisagem
e a ponho em primeira,
segunda, terceira e quarta
de segunda a sexta.

(às vezes dou-lhe ré,
mas ela sempre me escapa).

aos sábados e domingos
deixo-me ficar em ponto morto
diante dessas fotos já sem cor:

paisagens vistas de um retrovisor?


os retratos dos avós

as gravatas enforcam
as palavras dos avós
e se mais tento o diálogo
mais se apertam os nós
dos avós que se enforcam
de cabeça para baixo
presos aos seus silêncios
cientes dos seus recatos
de que não podem falar
sobre o que foi viajado
e da distância que há
entre o neto e seus retratos


burocrata

um jeito botânico
de quem cultiva folhas
de papel carbono.

de quem as enxerta
nos gestos e na fala.

de quem arvora
no caule do silêncio
de quem cala,

uma primavera burocrática.


quase em braille

míope, extravio
viagens
em valises

e a cidade tateio
quase em braille.

míope, não sei
em que lentes

deixei esquecidas
as antigas paisagens.

(poemas de "O Cristal dos Verões")

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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