Poesia e Gastronomia


(Milton Marques Júnior)

*para Germano Romero

Almoçava ontem, quando veio-me à mente o quanto comer pode ser poético. Eu comia um spaghetti com paillard e molho à bolonhesa, enquanto Alcione comia uma salada com farfalle. Foi o que ocasionou a associação entre poesia e gastronomia. Farfalle é aquela massa que as pessoas, comumente, chamam de gravata ou gravatinha, sem atentar para o fato de que ela tem o desenho de uma gravata borboleta. Não é à toa. Farfalla é borboleta em italiano, cujo plural é farfalle. Comentei, então, com Alcione que o nome, em italiano era, provavelmente, de origem onomatopaica – depois, fui conferir e realmente é –, pois nos induz ao bater das asas da borboleta. Chamar uma massa, que, normalmente, é antepasto na cozinha italiana, de farfalle é associar a leveza do inseto com a delicadeza e a leveza da massa que se ingere. Em suma, criativo, poético.

Ao chegar em casa, lembrei-me do filme O Tempero da Vida (Politike Kousína, 2003), direção de Tasso Boulmete (excelente filme, recomendo!), que nos ensina sobre como a vida tem que ser temperada, no dia-a-dia, ou na mesa. O personagem central, um professor de astronomia em Atenas, aprende com o avô, em sua infância na Turquia, que o saber temperar é essencial para saber viver. Recordo, en passant, que o verbo sapĕre, em latim, tanto significa ter o conhecimento de alguma coisa, saber, como sentir o sabor de algo. Sabor é saber e vice-versa, pois. É notável, no filme, o momento em que, na aprendizagem, o avô revela ao neto a relação entre gastronomia e astronomia, ao dizer que a segunda palavra está contida na primeira. Gáster, em grego, é estômago (stoma, por sua vez, é boca...) e áster, é astro, estrela; nómos é lei. A aproximação lúdico-etimológica faz com que um termo esteja contido no outro, trocadilho que fica melhor em grego, pois o termo gáster só nos remete para a doença gastrite... Assim, a lei que rege os astros é semelhante à lei que rege a vida, em que o estômago tem função primordial.

Nessa relação, o avô começa a descrever o nosso sistema solar, colocando os planetas na ordem que conhecemos, a partir do sol. O Sol relaciona-se com a pimenta, pois assim como o sol vê tudo (conceito de Homero), é quente e queima, e a pimenta dá vida a todas as comidas; Mercúrio, também quente, está relacionado com a pimenta vermelha em pó; Vênus é canela, doce e amarga, lembrando as mulheres; a Terra é o sal, pois na terra encontra-se a vida; para viver precisamos de comida e o que torna a comida mais saborosa é o sal. Magnífico! O neto não só aprenderá a cozinhar, como também, posteriormente, tornar-se-á um astrônomo respeitado.

Um único nome – Farfalle – desencadeou todo um voo do pensamento, batendo as suas asas, em busca do equilíbrio entre comida e natureza, ambas essenciais à vida, expressas na massa-borboleta, leveza poético-gastronômica.

Bom Domingo e bom apetite!

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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