Mário de Andrade e Lévi-Strauss


(Carlos Azevedo)

O antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e sua esposa Dina viveram vários anos em São Paulo, na década de trinta do século passado. Ele foi professor de Sociologia da recém-criada Universidade de São Paulo (USP). Dina Lévi-Strauss trabalhava com Mário de Andrade (1893-1945), então diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo.

No Brasil, o casal Lévi-Strauss comeu o pão que o diabo amassou. Suas duas expedições etnográficas (1935 e 1938) foram severamente fiscalizadas (censuradas?) pelo Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas, órgão criado pelo Estado Novo. Quando Lévi-Strauss deixa o Brasil rumo à França, foi preso no Porto de Santos, acusaram-no de levar em sua bagagem coleções etnográficas.

Ainda em São Paulo, quando exercia o cargo de professor de Sociologia na USP, teve sérios problemas.

Entre outros, diziam que a etnógrafa Dina estava traindo Lévi-Strauss. Tinha um caso de Mário de Andrade. O ingênuo e bom Lévi-Strauss acreditou naquele disse-me-disse-que. Claro, ele não sabia que o nosso Mário era homossexual.

Lévi-Straus separou-se de Dina por causa de Mário de Andrade. Talvez por conta disso, o antropólogo foi bastante reticente quanto aos trabalhos de Mário. O pai de Macunaíma sentiu muito àquele silêncio crítico. Mas não disse nada, absolutamente nada. Apenas invocou o espírito de Macunaíma: “um dia, algum vanguardista há-de fazer justiça a minha obra. Quero que Lévi-Strauss seja deglutido, ouviu, Macunaíma?

Anos depois, Caetano fez justiça a Mário. “Cantou a mais extraordinária e violenta crítica a Lévi-Strauss - a canção O Estrangeiro”. E conclui Massiano Canevacci, em Sincrétika -Explorações Etnográficas sobre Artes Contemporâneas (2016): “Lévi-Strauss foi deglutido pela música poético-sincrética de Caetano Veloso”.

(Para Jéssica Queiroz e Rupi Kaur)


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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