Entrevista Ângela Bezerra de Castro


(Dandara Costa - Jornal A União)

1. Em que medida sua trajetória pessoal contribuiu para sua escrita?

A trajetória pessoal sempre se reflete, decisivamente, nas realizações dos indivíduos. Comigo não deveria ser diferente. Se recomponho minha história de vida, em todas as etapas posso identificar meu modo de escrever em gestação.

Desde a infância, a palavra me conquistou. Primeiro, através dos Folhetos de feira. Neles aprendi a ler. E, muito cedo, recebi Rachel de Queiroz como ídolo, por influência de minha avó. Recitar poemas e colecionar discursos foram atividades preferidas em minha adolescência e juventude. E, até hoje, são formas de expressão que admiro demais. Em minha vida de estudante os mestres sempre se tornaram modelos para mim, com destaque para os escritores. Depois veio a opção pelo magistério e a paixão pelo ensino da língua e da literatura. O fato de eleger o texto como elemento fundamental de minhas aulas foi o passo decisivo que me conduziu ao exercício da crítica literária. Penso que no meu trabalho é possível identificar um compromisso didático que pressupõe a análise e a clareza de uma argumentação lógica, dedutiva.

2 - Como professora, onde você vê o maior erro da educação no Brasil?

O maior é o que origina todos os outros. Um erro intencional. A demagogia com que é tratada a Educação pelos governantes de todos os níveis e de todos os partidos. Citada como prioridade em qualquer palanque, mas sem projeto verdadeiro, o que se tem na prática é a mais absoluta falta de compromisso com os objetivos da Educação. Escolas, que são estruturas administrativas complexas, entregues a dirigentes despreparados para este fim, conforme o apadrinhamento político. O magistério não se configura como uma carreira. Sem quadro permanente e com salários aviltantes é a concretização do descaso com a mais importante política pública a ser desenvolvida pelo Estado.

3 - O atual governo tenta passar a mensagem de que as universidades federais servem apenas para criar militantes da esquerda. O que você acha das universidades públicas?

Toda generalização e todo reducionismo se fundamentam em equívocos e induzem ao erro. Para qualquer povo a Universidade Pública é um patrimônio que tem como lastro o saber. Um bem que quanto mais dividido mais se fortalece. Saber que liberta o homem porque o transforma e faz crescer na medida de suas potencialidades.

É próprio da Universidade ser plural, integrar em convivência os saberes. Pois é no diálogo que se qualifica a aprendizagem. Somente assim a Universidade propicia o desenvolvimento do nível crítico, que pressupõe a análise e a avaliação. Um patamar que se faz busca permanente na construção do saber. Com esse perfil, a Universidade não se permite engessar por qualquer ideologia.

Limitar-se a formar militantes de esquerda, de direita ou de centro seria a negação de sua natureza, de sua razão de ser. Inserindo-se no contexto de uma realidade social mais ampla, ela sempre viverá as mesmas crises desse contexto. Mas sem perder de vista seu compromisso ético com a Educação e com os valores daí decorrentes. Somente assim, poderá favorecer o desenvolvimento de pessoas livres, sábias e conscientes, capazes de contribuir, positivamente, na construção de um mundo melhor.

4 - Na sua opinião, qual tendência literária vai ser predominante no século XXI? Por quê?

Não tenho competência para fazer essa previsão. Faltam mais de oito décadas para o término deste século. Imagine essa pergunta feita em 1919. Nem os modernistas de 22 ou os regionalistas de 30 teriam como antever os desdobramentos da literatura no século passado. Poderiam imaginar que estaria sendo gestada a genialidade de Guimarães Rosa? A resistência convicta de Ariano Suassuna? Arrisco dizer que não haverá uma tendência predominante. Mas movimentos diferenciados que, complementando-se, irão delinear e caracterizar o perfil deste século.


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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