Carlos Romero, meu pai



(Carlos Augusto Romero Filho)

Quando nasci, ganhei seu nome: Carlos Romero. Não sei se foi uma escolha dele ou de mamãe. Só sei que sempre tive orgulho desse nome. Quando eu era menino só queria ser como ele. Achava-o bonito,inteligente. Sempre foi meu ídolo, meu herói. Quando mamãe partiu, muito precocemente, eu e Germano, meu irmão caçula, sofremos muito. Ficamos os três sem ela. Papai dizia que éramos uma “tristíssima trindade”. Sem ela, mas lá estava ele no centro, para nos orientar, nos guiar. Era nosso sol. E assim seguimos nosso caminho com ele. Os primeiros anos muito difíceis, mas de grande aprendizado. Nessa época, escreveu um livro: A Dança do Tempo. Um livro que para ele, representou uma verdadeira catarse, transformando sofrimento em arte. Um livro que conta uma parte da história dele, da nossa história também. Um livro escrito com o coração.

Esse foi primeiro, mas outros livros viriam, e em todos o “cronista do amor” , como ficou sendo chamado depois, sabia combinar poesia e sabedoria. Poeta e sábio, é assim que sempre o vi. Depois que ele partiu me veio uma grande vontade de escrever, de relembrar um pouco a longa convivência que tive com ele. Mas, mal começava a escrever tinha que interromper por causa da emoção. Também não sabia muito bem por onde começar. São tantas as memórias: lembranças de menino, de adolescente, de homem feito... Toda minha vida vivi com ele estando presente, ali, pronto para me ouvir. Ninguém foi mais presente na minha vida do que ele. Alegria, tristeza, incerteza, sucesso, tudo compartilhei com ele. Papai sempre foi meu referencial.

Vou começar recordando o papai de minha infância. Minhas primeiras lembranças me remetem à nossa casa no bairro do Róger. Morávamos perto do meus avós paternos, ali na rua Batista Leite. Eu vivia entre as duas casas. Minha grande diversão era ir à Bica com meu avô, e à feira com papai. Toda manhã de sábado, íamos ao Mercado Central. Eu adorava a companhia dele. Ficava observando seu bom humor, falando com todos aqueles feirantes. Sempre tomávamos caldo de cana, e depois ele comprava sequilhos e alfinim pra gente levar pra casa. Dávamos outros passeios, ali pelo centro da cidade. Uma vez me convidou pra tomar café no Ponto de Cem Réis. Eu nunca tinha tomado um café tão quente, e queimei a língua.

Desde pequenininho me acostumei a ver papai mergulhado nos livros. Nos livros e na música. Ainda fazendo o curso primário no Instituto Manaíra, na rua Duque de Caxias, ganhei toda a coleção de Monteiro Lobato. Li todos os livros da coleção, e ainda tenho saudade do mundo encantado do sítio do Picapau Amarelo, com as aventuras do Saci e as histórias de Dona Benta. Por causa disso, nunca tive problemas na escola pra fazer redação. Aprendi gramática lendo Monteiro Lobato e Érico Veríssimo. Depois, quando fui crescendo, papai passou a me dar livros de filosofia: Will Durant, Bertrand Russel, seus autores preferidos. Assim, cresci no meio dos livros, e da música, escutando Bach, Beethoven e Mozart. Não me esqueço de papai , logo de manhã cedo se fazendo de maestro e regendo a nona sinfonia de Beethoven pra gente. Também nunca esqueci quando ele me fez escutar com atenção a “Floresta Amazônica”, de Villa Lobos. Uma vez, chegou em casa com um disco de Mozart. Era o réquiem. Fui escutar com ele. Depois de ouvirmos o majestoso Introitus e o sublime Kyrie, ele fez uma pausa para me explicar as circunstâncias que levaram Mozart a compor o réquiem. A história que ele contou me impressiona até hoje.

Se papai nutria minha alma com música, a literatura e a filosofia, meu avô, José Augusto Romero, me trazia para a astronomia. Veio assim o gosto pela ciência e terminei me decidindo pela carreira científica. E me lembro bem como Papai me estimulou nessa decisão. E assim, os vinte e três anos, depois de me formar na universidade, saí de casa pela primeira vez. Fui estudar no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro. Fui ser físico. No Rio, fiquei longe dele por vários anos, mas as cartas, os telefonemas e as férias na terrinha amenizavam minha saudade. Algumas vezes ele e mamãe foram me visitar no Rio. Nessa época, estavam surgindo os primeiros “shopping centers”. Um dia, enquanto mamãe fazia compras no recém inaugurado Rio Sul, fui com ele à livraria Leonardo da Vinci, na av. Rio Branco. Lá, para nossa grande surpresa, encontramos Carlos Drummond de Andrade, absorto na leitura de um livro, num cantinho de uma sala. Apesar de minha insistência, papai não quís se aproximar dele. Achou melhor ficar observando o poeta de longe, sem perturbá-lo, e aí me falou das cartas que os dois já haviam trocado. E ali estava eu, entre um cronista e um poeta, cheio de admiração pelos dois.

Tempos depois, quando fui fazer um estágio de pós-doutoramento na Inglaterra, tive o prazer enorme de receber sua visita. Parece que estou vendo-o chegar, acompanhado de sua adorável Alaurinda, Germano e Davi. No dia seguinte à sua chegada, nevou em Londres. Ele adorou o fog londrino. No nosso primeiro passeio pela capital inglesa, quando íamos para a estação do metrô, passei com ele por uma plantação de amoras. Como ele adorou comer aquelas frutinhas silvestres! Papai observava tudo com atenção. Mas eu sentia que seu olhar se detia ainda mais nas pessoas, no ambiente humano à sua volta. Em Cambridge, que visitamos um dia, fiz questão de mostrar a ele onde lecionava Stephen Hawking, o famoso cosmólogo inglês. Aí, ele começou a me fazer perguntas sobre o Universo, perguntas difíceis, que às vezes eu nem sabia responder. Voltou à Inglaterra outras vezes, e numa delas fez questão de ir ao observatório de Greenwich. Motivo: estava havendo ali uma exposição sobre o naufrágio do Titanic, e ele se interessava muito por essa história, que o tinha impressionado na juventude.

De volta ao Brasil, nasceu meu primeiro filho, que recebeu também o nome do avô. Não me esqueço da alegria que me dava ver o avô brincando com o neto. Eram as mesmas brincadeiras que ele fazia comigo na minha infância. Nada me dava mais prazer do que ver meu pai e meu filho juntos, brincando. Depois veio Raíssa, sua neta, que com o passar do tempo muito se afeiçoou a ele, parecendo compartilhar com ele o interesse pela literatura. Quando Raíssa completou dez anos, papai escreveu uma crônica inteira sobre ela. Foi um presente de aniversário inesquecível.

Nos últimos anos de minha vida tenho me dedicado completamente ao meu trabalho na universidade. Assim como papai, sempre gostei de ensinar, do ambiente acadêmico, do contato com a juventude. Nisso somos muito parecidos. Aposentar-se pela compulsória foi uma das coisas das quais ele mais se ressentiu. Realmente, dava gosto de vê-lo dar aula, lá na Faculdade de Direito. Dava gosto de vê-lo falar na Federação Espírita, nos centros espiritas para onde era sempre convidado. Várias vezes foi fazer uma palestra na Federação Espírita Pernambucana, em Recife. Geralmente as reuniões eram nas tardes de domingo. Recordo-me dele falando num auditório imenso, lotado de gente. Falava com uma naturalidade impressionante. As palavras saiam fácil, recheadas de bom humor e sabedoria. Papai era um orador excepcional, que usava seu talento para ensinar a doutrina espírita, religião que abraçou com convicção e que sempre o confortou nos momentos difíceis.

Muitas vezes papai me perguntou: por que você não escreve um livro? Eu ficava sem saber responder. É verdade que escrevi muitos artigos científicos durante minha vida universitária. Também dei muitas palestras sobre temas de física, cosmologia, no Brasil e no exterior. Mas acho que ele queria um livro de literatura, ou de filosofia, ou mesmo de física, mas que pudesse ser lido por qualquer pessoa. Hoje fico pensando: se algum dia eu tivesse escrito um livro, como teria ficado ansioso pra ver a reação dele! Acontece que acabei sendo consolado dessa pequena frustração. Se eu não escrevi, o meu querido mano escreveu. E escreveu um belo livro de crônicas. Numa cerimônia emocionante lá na Fundação José Américo, tive a alegria de presenciar “Bazar de Sonhos” ser lançado junto com “Viajar é Sonhar Acordado” .

Penso que está na hora de terminar. O que escrevi aqui foram apenas fragmentos de memória que me vieram de repente. Escrevo ao som da nona sinfonia de Beethoven. Nada me lembra mais papai do que a música. E é a ode à alegria, de Schiller, que me transporta até ele nesse momento. É a música me levando novamente a ele, como um milagre, trazendo de novo sua imagem, sua voz. É papai, outra vez, chegando! Papai que nunca esquecerei. Pois, como diz o título daquela crônica dele: “Amar é não esquecer” . “Ter saudade é bom. Só o ser humano tem saudade. Saudade é fome de presença”. Que essas lágrimas de saudade que me vêm agora sejam também as lágrimas da gratidão. Obrigado, papai!


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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