Canções para o tempo

(Clóvis Roberto)

“Não me iludo/Tudo permanecerá do jeito que tem sido/ Transcorrendo/ Transformando/ Tempo e espaço navegando todos os sentidos”. É o que diz o mestre Gilberto Gil em “Tempo Rei”. É que se há uma coisa que não muda é a transmutação do tempo. Revolucionário, ele tem poderes diversos. É vida, morte, saudade, renovação, decepção, fúria, bálsamo, cura.

Implacável, o tempo não é certo ou errado. Ele apenas avança para cravar no passado arquivos que vagam pelas nossas memórias (ou somem no labirinto da nossa existência), lembrados ou não. Pode ser um segundo com sensação de horas, dias semelhantes aos minutos, anos com sabor de séculos. Mas aí não é o tempo e sim a essência do ser atuando e alterando o relógio interno, o nosso próprio tempo, mas jamais o tempo que rege a todos.

Eis que surge outra música. Era o Legião Urbana tocando já nos idos de 1985 pela voz de Renato Russo sobre o “Tempo Perdido”: “Todos os dias quando acordo/ Não tenho mais/ O tempo que passou/ Mas tenho muito tempo/ Temos todo o tempo do mundo... Temos nosso próprio tempo”.

Com a canção vem a reflexão. O espaço temporal é variável também. E parecem seguir uma regra. As voltas dos ponteiros parecem que para cada indivíduo têm rotação diversa. Ora é célere para um, ora lenta para outra. Para os mais jovens, o relógio geralmente é mais veloz; para o os mais velhos, tudo é mais vagaroso, ao menos nesse nível de existência, e ele pondera mais ao usar seu tempo. Às vezes, os mais velhos simplesmente ignoram o tempo, meio que afirmando que superaram a necessidade de provar ao relógio que a vida independe dos ponteiros. Ele conquistou o seu próprio tempo.

E outra música entoa. “O tempo passa em meio a momentos que fazem um dia monótono/ Você perde tempo gastando as horas de modo descuidado... Cada ano que passa fica mais curto/ Parece nunca arranjar tempo/ Planos que tampouco deram em nada/ Ou meia página de linhas rabiscadas”, alerta “Time”, escrita por Roger Waters, no clássico álbum “The Dark Side of The Moon”, do Pink Floyd.

E a vida segue, pois “saiba que ainda estão rolando os dados/ porque o tempo, o tempo não para”, lembra a canção de Cazuza. E mesmo que você pare, o tempo está ali para afirmar que ele seguirá, provocando suas transformações no seu ser. Pois o seu tempo deve seguir, não deve ser encerrado por decisão sua.

Que sejamos o gerente do nosso tempo, seja ele qual for. Que o nosso “Tempo Rei” seja para servir ao nosso reinado.


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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