Um preciosa convivência


(Ângela Bezerra de Castro)

Apaixonado pela cultura grega, Tarcísio Burity reportava-se frequentemente aos temas e valores daquela civilização como verdadeiros motivos recorrentes, identificados em grande parte de seus pronunciamentos. E igualmente referidos, mesmo em conversas informais, onde o entusiasmo de suas convicções sempre resvalava para a compreensão erudita de todas as coisas.

Ouvi-lo, acompanhar o desenvolvimento matemático de seu raciocínio era um dos encantos desta preciosa convivência. Não que ele se impusesse por arrogância ou convencimento. Mas pela necessidade intrínseca, que fazia do exercício da inteligência uma prerrogativa de sua natureza. Se tivesse que lembrá-lo por uma só palavra, eu escolheria diálogo, pois nenhuma outra revelara, com tanta propriedade, o traço que consubstanciou a sua maneira peculiar de estar no mundo, a sua definitiva afirmação de ser. Por formação, por escolha ou por vocação.

Ao concluir uma conferência ou ensaio, após o silêncio e isolamento impostos pelo ato de escrever, submetia o texto à apreciação. Neste aspecto, era de uma surpreendente simplicidade, quase tangenciando a humildade. Não buscava elogios. Queria a análise critica, a leitura verdadeiramente acadêmica. O diálogo do saber que compreende a falha ou a imperfeição como estágio para o crescimento e a superação.

Antes de escrever, Tarcísio convivia longamente com os temas escolhidos. E fazia parte deste processo a exposição oral, em repetidos encontros, como forma de testar a pertinência e a originalidade dos aspectos a serem desenvolvidos. Era a consciência cientifica, no rigor de sua honestidade, sabendo que escrever pressupõe o compromisso de descobrir e acrescentar.

Se o tema era literário, cercava-se ainda de maiores cuidados. Foi assim, quando produziu a conferencia “O trágico em José Lins do Rego” e “Gilberto Freyre”, proferida no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Mas, no instante de ler, é que ele se superou. Porque então era o professor em toda sua plenitude, com tal poder de domínio e de convencimento que o texto surpreendeu, como se, antes, existisse apenas a Letra, o poema e, naquele instante, tivesse recebido a melodia que o transformara em canção.

(excerto de ensaio)


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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