Sinceramente


(Silvino Lopes)

Morei numa cidade do interior já faz anos, onde circulavam dois jornais que não se davam bem, eram órgãos de partidos que não se entendiam. Hoje tudo é diferente, pois, os partidos se entendem, mesmo quando não se unem. Cada órgão tinha o seu redator político e este marretava.

Encarregavam-se os dois de defender, lá ao seu modo, o povo, Maltratavam-se gentilmente, porque eram vergônteas de uma classe.

Mas, um deles era terrível. Dizia do confrade coisasr horrorosas. Não recebia, porém, resposta no mesmo tom. Muita gente chegou a pensar que a polêmica terminaria em sangue. Lembravam-se muitas pessoas da hecatombe em que perdera a vida o barão da Escada. Não era possível que, recebendo diariamente insultos, o adver-
sário calmo não terminasse varando o confrade com cem ou duzentas balas.

O desaforado jornalista atacava em verso e prosa. Mais em versos. Epigramas ruins, porém causticantes. Por último já atirava pedras rimadas sobre o lar do homem prudente. Estava com o freio nos dentes. Assinava a versalhada com o pseudônimo de Jacques Milcau. Era o mesmo que botar abaixo dos versos o seu verdadeiro nome.

O outro não manejava o verso. Tinha essa desvantagem. O povo gostava mais dos versos. Urgia que o homem atacado criasse veia poética. E ei-lo a tentar. Um dia, ainda incerto na ciência de metrificar, resolveu mandar ao inimigo uma pequena prova do seu esforço. E foi somente isto o que publicou:

"O dr. Jacques Milcau,
poeta de nomeada,
ficou de barriga inchada
de tanto comer mingau".

O feroz adversário não aguentou a experiência. Ficou mesmo de barriga inchada, não escreveu mais nada, abandonou a política, desistiu de ser jornalista.Vê-se, por aí, que facilmente se põe um inimigo fora de campo. Bastará não levá-lo a sério.

Assim, não pensa o meu confrade Nelson Firmo. Outros seguem a sua escola. Estão errados. Há mais necessidade de humor do que de manteiga para o pão, do que de pão para a manteiga.

Somos todos irmãos, todos brasileiros e um pouco moleques. Deus nos deu a faculdade de sorrir e, para contrariá-lo, andamos a chorar de raiva. Vá lá que o mar se enfureça, porém nunca os banhistas. A raiva ficou para o cão que, aliás, é um bicho
amoroso. O ódio foi um recurso de Shakespeare para escrever Othelo.

Nada mais triste do que a caveira, e sempre está sorrindo. O choro só se justifica na criança. Se não chorar, não mama.

(Do livro Memórias de um Sargento de Malícias)

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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