Literatura e Psicografia


(Milton Marques Júnior)

Para quem estranhou o título, gostaria de esclarecer alguns pontos, antes de iniciar a discussão sobre o assunto. De literatura entendo alguma coisa, devido à minha vivência de professor na área, já com três décadas de atuação. De psicografia, por outro lado, nada entendo, a não ser por alguns testemunhos que tenho visto e por algumas leituras que, ultimamente, ando fazendo. Leituras teóricas e leituras literárias. Aproveito também para esclarecer que o que passarei a discutir não pode e não deve ser confundido com proselitismo, pois não professo nenhuma religião, ainda que o Espiritismo me seja muito simpático. Mesmo que professasse alguma religião, aqui não seria o espaço para isto.

A simpatia, que me inspira o Espiritismo, deve-se ao fato de que, diferentemente de outras religiões que conheço, o Espiritismo é mais expressão de religiosidade do que, na realidade, religião. Seu foco, explicando melhor e incorrendo na possibilidade de estar errado, não é em uma instituição a partir da qual se estabeleçam hierarquias e, consequentemente, haja disputa ou concentração de poder. A sua espinha dorsal se estabelece, pedindo a devida vênia aos espiritistas e arriscando a ser reducionista, não em obrigações e punições impostas e previstas por uma doutrina muitas vezes mal interpretadas, mas no amor e na caridade, tendo como Jesus como guia. Feitos tais esclarecimentos, passo a discutir, ainda que de forma incipiente ou insipiente, se quiserem alguns, o tema proposto.

O que me leva ao tema deste artigo é o impacto que senti após ler algumas obras psicografadas por Chico Xavier. Em dois meses, li Sexo e destino (1963), Nosso lar (1944), Há dois mil anos (1939), Ave Cristo, (1953) e Paulo e Estevão (1942). Todas me impressionaram seja pelos assuntos variados que nelas encontramos - obsessão sexual, vida após a morte, Cristianismo nascente -, seja pelo apuro da linguagem, seja, enfim, pela precisão das informações, no que concerne às chamadas narrativas históricas, sobre o Cristianismo primitivo.

Adianto que os títulos citados não são livrinhos, nem no diminutivo quantitativo, nem no qualitativo. Além de se tratar de narrativas de razoáveis para excelentes, são obras alentadas em seus números de páginas. Paulo e Estevão, por exemplo, é uma narrativa de 550 páginas, editada pela Federação Espírita Brasileira, em 1998, na sua 31a edição. Esta obra, cuja primeira edição é de 1942, foi psicografada por Chico Xavier, ditada pelo espírito Emmanuel.

Particularmente falando, fiz a leitura de Paulo e Estevão de uma assentada, entusiasmado com o tema e com a fluência da escrita. Tendo me impressionado com os livros anteriores, essa obra motivou-me a escrever algo, porque o rói-rói não me deixava quieto. Impressionava-me, sobretudo, o fato de ter conhecimento do pouco estudo escolar de Chico Xavier, que só fez até o antigo ensino primário. A obra em questão - Paulo e Estevão - trata dos primórdios do Cristianismo, mais precisamente da sua fundação e instituição, a partir do apostolado de Paulo, a verdadeira pedra da Igreja Cristã. Partindo do início da vida de Estevão, sua conversão ao Cristianismo ou à Igreja do Caminho, conforme era chamado o Cristianismo no seu início1, sua perseguição sistemática e inflexível por Saulo de Tarso, até chegar à conversão de Saulo, seu apostolado com as quatros viagens missionárias de Paulo, a ele designadas por Cristo - Galácia, Grécia, Ásia e Grécia, e Roma - e, enfim, sua morte em Roma.

Há quem possa alegar que a obra foi construída em cima dos Atos dos Apóstolos, o que é uma verdade. Porém isto não a desmerece, muito pelo contrário. Trata-se da utilização consciente ou não de um dos recursos mais antigos da literatura – a intertextualidade. Por outro lado, Paulo e Estevão não pode se resumir apenas a uma repetição dos Atos dos Apóstolos, como poderiam inferir leituras menos atentas, mas de uma recriação, como a boa literatura requer. Recriação dos primeiros momentos da vida de Estevão, da relação amorosa de Abigail com o ainda então Saulo, doutor da lei e importante fariseu do poderoso Sinédrio de Jerusalém, até chegar à morte de Paulo, em Roma, sob Nero, fato que o livro do Novo Testamento não retrata. Por outro lado, quem conhece bem os Atos dos Apóstolos sabe das várias viagens que Paulo fez e dos intrincados caminhos pelo oriente e pela Grécia, percorridos pelo Apóstolo judeu convertido em Damasco. Na narrativa de Paulo e Estevão, o personagem Paulo faz aquela viagem, o que seria a sua quinta missão evangelizadora, ao ocidente, evangelizando a Gália, atual França, e a Espanha. Tais fatos encontram-se apenas anunciados como propósitos na Epístola aos Romanos (15, 23-24), de autoria de Paulo. Mesmo para o estudioso do assunto, não é fácil ter em mente essa geografia. A fluência com que a narrativa corre demonstra um narrador muito à vontade em fazer e tecer tais percursos. Como explicar tais coisas? Como explicar que alguém pouco letrado tivesse a capacidade para escrever narrativas de linguagem apurada, com tramas em que a chamada verossimilhança interna me parece inquestionável e, além disso, com informações precisas que, de modo algum, parecem superficiais ou retiradas às pressas de algum manual? Francamente, não tenho como explicar. Alguém poderia explicar que o autodidatismo é um fato e que o livro poderia ser fruto de pesquisa, mas não acredito que essa explicação seja satisfatória, senão vejamos.

Aos que não sabem, Chico Xavier viveu 92 anos (1910-2002) e sua primeira obra, Parnaso de além-túmulo (1932), foi escrita em 1931. Ao longo dos 71 anos de atividade espírita, Chico Xavier psicografou 468 (sim, quatrocentos e sessenta e oito) livros e cerca de dez mil cartas. Considerando, portanto, o ano de 1931, o início de suas atividades de psicografia e o ano de 2002, quando morreu; considerando ainda que ele morreu ainda em atividade – do que eu não tenho certeza -, isso dá uma média de quase 7 livros por ano. Fazer pesquisa para um livro, para alguns livros é plenamente possível. Já não vejo como se pode fazer pesquisa para quase quinhentos livros, escritos a um ritmo de sete por ano. Quem escreve, quem produz sabe exatamente do que estou falando. Sei o quanto a questão é polêmica e está longe de ser resolvida, do ponto de vista da arte literária. Esclareça-se, ainda, que, em momento algum, as entidades, seja Emmanuel, seja André Luiz, expressam uma pretensão literária.

Diante desses fatos, a pergunta é incontornável: alguém já pensou em como se faz para escrever sete livros por ano, ao longo de setenta anos? Como possíveis respostas, só encontro o seguinte: ou Chico Xavier realmente psicografou tais obras ou ele era um escritor de uma prolificidade invejável. E, diga-se de passagem, melhor do que muitos que posam de escritor, no Brasil dos últimos tempos.
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1 Atos dos Apóstolos, 9, 2; 19, 9; 24, 14 e 22. Em Latim, o termo Caminho é traduzido ora como via, ora como secta, nesse caso epitetado como haeresis, doutrina. Como o Novo Testamento foi escrito em grego, o termo que lá se encontra é (o do/j, caminho, via, também existindo o epíteto ai(/r esij. Para a Bíblia em português, usamos a Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri, Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. Para a Bíblia em grego e latim, usamos o Novum Testamentum Graece et Latine, Stuttgart, 1928.


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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