Autenticidade



(Alaurinda Romero)

A beleza da vida está nas nossas escolhas, no nosso livre arbítrio e nas responsabilidades que tomamos para nós. A primeira vez que vi Carlos foi quando fui buscar o meu irmão, João Bosco, em sua casa, e ele estava na entrada do portão. Então, eu perguntei: “o senhor é o pai de Germano?” - “Sim. Eu vim buscar Bosco”.

Carlos simplesmente olhou para mim, e foi aí que não me detive apenas no seu olhar. Senti-o tão forte e profundo que até hoje não encontro palavras para descrevê-lo. Aliás, por mais nítidas e bem escritas, em nenhum idioma as palavras serão capaz de definir com exatidão aquilo que sentimos, aquilo que nos emociona.

Nessa mesma noite, fui convidada para um jantar, na casa de Carlos, oferecido após o concerto de nossa Orquestra Sinfônica – da qual fiz parte, como violinista, durante 30 anos –, em homenagem ao pianista Nelson Freire, à cantora lírica Maria Lúcia Godoy e ao grande maestro Eleazar de Carvalho, na época, nosso regente titular.

A noite só foi minha e dele. Fomos à sua biblioteca, folheamos muitos livros, conversamos sobre viagens, música, literatura. Tudo o que eu mais gostava estava ali com ele. Eu nunca fui tão autêntica, tão eu mesma e ele era ele. Uma verdadeira comunhão de pensamentos e vontades. No dia seguinte, Carlos me telefona e pergunta se poderia me levar para o ensaio da orquestra. “Sim” - respondi.

Quando chegou, vi que ele estava ainda mais bonito, no seu modo lento e cordial de ser. Como é bom ver e sentir a autenticidade transparente de uma pessoa verdadeira... Carlos, durante quase 30 anos, sempre foi e sempre será o mesmo, desde que o conheci. Compreensivo, íntegro, sincero, discreto, elegante, nunca alterou o tom de sua voz mansa e tênue. Quando eu insinuava uma discussão, ele apenas dizia: “Lau, meu anjo, eu não tenho mais tempo para ser infeliz”, e esboçava apenas um sorriso. E assim, costumava dizer, carinhosamente, que eu era “um anjo que apareceu em sua vida”.

Mas, o anjo era ele, que tanto me ensinou. Ah, como aprendi com ele! Às vezes, eu não encontro palavras para me expressar e dizer o quanto Carlos foi e continua sendo valioso para mim. Os livros que ele me indicava, os filósofos que mais amava… Bertrand Russell, Michel de Montaigne e tantos outros. Uma vez perguntaram a Montaigne, porque ele gostava tanto e admirava tanto o seu grande amigo, Étienne de La Boétie? Ele apenas respondeu: “Porque ele era ele”. E é por isso que eu amei e continuo sempre amando o meu Carlos. Porque ele era ele e eu me via nele.

“Amor, eu te amo. Você, fofinho, possui o meu pensamento. Vou tentar conviver com essa saudade eterna, mas, sempre com o consolo e a certeza de um novo reencontro.

De sua Lau”.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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