O poder revolucionário do magistério


(Ângela Bezerra de Castro)

Venho de outra experiência existencial. Da utopia concreta que é resistência de uma vida inteiramente dedicada à causa da educação. Não à teoria nem aos postos burocráticos, onde o distanciamento costuma esmaecer o impacto da realidade. Venho da linha de frente desta batalha que, perdida, com ela também se perdem todas as perspectivas da sociedade.

Mas não faço o discurso apocalíptico. Faço o discurso crítico que continua e complementa o discurso da ação. Porque “criticar é infundir vida. É criar.” Cabe ao intelectual, nesta tarefa, distinguir, desembaralhar, pensar a diferença, como um paciente construtor de pontes, produtor ou agente de relações livres. Este é o sentido mais genuíno do fazer emancipatório do saber critico. O intelectual assumindo, em vez do perfil desfigurado, “os contornos inconfundíveis do rosto que sabe e se sabe livre. E porque sabe, inesperadamente pode.”

Na travessia de três décadas escolhi viver esta certeza e esta esperança, sintetizadas pelo mestre Eduardo Portella, na estrutura característica de seu pensamento e de seu estilo.

Três décadas em que o sistema educacional brasileiro viveu situações-limites em função de fortes interferências político-sociais. O golpe de 1964 que, durante vinte anos, impôs o cale-se/cálice e suas traumáticas consequências. A explosão demográfica e o êxodo rural para as cidades, provocando a obrigatoriedade do crescimento da rede pública de ensino, despreparada para esta resposta com a manutenção da esperada qualidade. A expansão mercantilista do ensino com a ostensiva priorização do lucro sobre o processo ensino-aprendizagem. A inconsequente opção social pela massificação do ensino, em vez do esforço responsável pelo primado da educação.

Reformas, sem compromisso pedagógico, em que os métodos de ensino, a avaliação da aprendizagem, a merenda, o transporte escolar e até o livro didático descartável, em sua deformadora prodigalidade, - todos os elementos enumerados – assumem feição contrária aos propósitos educacionais. São estas as linhas-mestras da desconstrução, identificadas sem grande esforço analítico.

Encontrar e abrir veredas na contramão desta marcha avassaladora é o papel do professor, como intelectual. Descobrindo na permeabilidade do sistema os espaços que existem. Que existiram mesmo na ditadura porque o trabalho de conscientização, de ensinar a pensar não implica o exercício do proselitismo. Basta o domínio da palavra, a plenitude da expressão para que o homem tenha em si mesmo o mais poderoso instrumento de afirmação da liberdade de ser. E isto é tudo.

Assim compreendo e vivi apaixonadamente o magistério. Acreditando no seu poder revolucionário. O poder de completar o homem instrumentalizando-o para a compreensão e para a mudança. Poder de edificar o homem no seu interior, como cidadela inexpugnável.

(excerto de discurso)

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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