Um certo modo de ser


(Germano Romero)

Dize-me como tratas os animais que te direi quem és. Eis uma pista muito eficaz para definir o espírito e o caráter de um ser humano. Aliás, entre as atitudes que delineiam com indubitável nitidez a índole e o nível de evolução de uma pessoa, está o tipo de tratamento que dispensa aos subordinados, aos humildes, assim como aos irmãos que nada têm de irracionais.

Costuma-se dizer: “Quer conhecer bem uma pessoa?: dê-lhe dinheiro ou poder”. O poder ou a autoridade concedida a quem é mau, egoísta, vaidoso, ainda que materialmente pobre, revelará de pronto a sua mediocridade. Se for rico, pior, pois imprimirá à função autoritária os traços de soberba cultivados ao sabor do dinheiro.

No mau trato aos animais, torna-se mais cristalina a face que se desoculta de quem é perverso. Por serem indefesos, eles mereceriam ainda mais carinho, respeito e atenção. Além de retratarem a pureza que não se maculou pela “razão” humana, tão essencialmente discutível…

Há poucos dias, soube de uma história comovente que nem uma poesia. De alguém que foi capaz de “criar” um casal de lagartixas, habitantes de um coqueiro em seu quintal. Alguém que possui realmente “um certo modo de ser”. Pois bem, as lagartixas vinham naturalmente comer farelos e restos de comida que ela punha no pé do coqueiro, sem medo algum. Talvez sintonizadas com a aura de quem ama e respeita a natureza. Os bichos sentem. As plantas também. Daniel dos leões que nos conte.

A amizade com o casal coqueiral era tão contagiante que até o gato de estimação costumava pegar uma ou outra lagartixa, trazê-la na boca, sem machucar, e colocá-la aos pés de sua dama protetora, na intenção de agradá-la. Uma incrível e contagiante simbiose...

Outra memorável cria sua foi um sapo. Com quem nutriu uma intimidade quase doméstica. Quando sentia fome, o anfíbio ia coaxar no seu terraço para logo ser servido. Era uma afinidade inusitada! Um dia, tiveram que se separar, quando se mudou da casa para um apartamento. Então, levou o sapo para o sítio de uns familiares, a fim de que ele permanecesse em um habitat seguro e cordial.

Como dizia Carlos Romero, “chegou a hora de revelar” quem é a sensível dama, cujo olhar poético é capaz de enxergar em sapos e lagartixas a mesma beleza que vê nas petúnias, hoje presentes em sua varanda, a vinte andares de altura: Ângela Bezerra de Castro, de quem o cronista definiu, em doce crônica, o seu certo modo de ser: "Pouquíssimas são as pessoas que amam os bichos como se fossem gente. Há muitos que são indiferentes ou tratam mal os animais chamados irracionais. Que só recebem pontapés ao invés de carinho. Ângela chorou. Chorou pela morte de seu animalzinho de estimação. E isto só fez crescer minha admiração por ela, que tem uma sensibilidade fora do comum".

Ela acabara de perder Ciganinha, sua gata querida. Fato relatado logo que foi percebido pelo cronista, na tristeza de seu olhar, em um encontro casual que terminou virando crônica.

Em mim, meu querido pai, essa admiração também só cresce. Por ela, por você e por todos os que amam a natureza.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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