Suíte de Silêncios



Marília Arnaud
(Fragmentos de um Romance)

“Por trás da lembrança mais devastadora da minha infância, daquela que lançou uma sombra sobre o meu coração, fazendo com que ele nunca mais batesse no mesmo tom, escondem-se uma criança e algumas palavras. No rastro dessas, vieram outras, crianças e palavras, com pequenas variações, e olhares enviesados, silêncios e reticências.”

“Com a música, experimento um não sei quê de assombro. Não, é mais do que isso. Música me abre um rasgão no meio do peito. Papai me deu a música; mamãe, a saudade. Pai e mãe fazem doer; aprendi a gostar da dor. Então, fico quieta e ferida, toda ouvidos, descobrindo que a beleza às vezes faz sangrar.”

“Uma porta para o dia seguinte, para a manhã inimaginável não se abria, porque uma segunda-feira de dezembro se trancara por dentro e jogara a chave fora. Não se ousava bater à porta, nem sacudir a maçaneta, tampouco forçar uma janela ou abrir-lhe uma mínima fenda. Os prazeres, os mais breves, não tinham espaço no presente. E a vida fazia de conta que seguia em frente, sem seguir a parte nenhuma, conjugando-se no cativeiro do passado.”

“Então, você se fora, e eu me dava conta de que, enquanto vida houvesse, sempre se podia perder um pouco mais, sendo de todo inúteis os esforços para domar a dor. Adestrá-la, torná-la tolerável e até esquecida, porque outras perdas estavam a caminho, sem convite, nem cerimônia, todas pesadas, de lombo grosso, e vinham descabrestadas, soltando relinchos violentos, mostrando-se estéreis quaisquer estratégias para evitá-las.”

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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