O gato e o poeta



O Gato e o Poeta
(Sérgio Castro Pinto)

O gato faz do poeta
gato e sapato:
foge do poema
para o telhado.

paciente, o poeta
atrai o gato
com o novelo
dos vocábulos:


puxa-o pelo rabo
bem devagarzinho…
e o que era rabo
vira focinho.

o poeta, satisfeito,
dá algumas voltas
numa chave de ouro
e o aprisiona
dentro do soneto.

Mas o astuto gato
não lhe ensinou
o pulo do gato
e de novo foge
do poema pro telhado.

pena que, nessa fuga,
os faróis de um fusca
acendem e ofuscam
os olhos do gato
que foscos se apagam
na escuridão do asfalto.

ah, insensato gato,
não estarias melhor
prisioneiro do poema
do que sem as sete vidas
que fogem, uma a uma,
no leito da avenida?

é quando, com um fio de miado
– mas sem perder o da meada -,
o gato lavra o seu protesto:
“- valeu a pena, poeta,
fazer do seu poema
o meu cemitério?
por que não, poeta,
um poema-telhado,
cheio de vida e de gatos?”

e nada mais disse nem lhe foi perguntado.

(Sérgio Castro Pinto)

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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