"Fome de devaneio"


(Mercedes Pepita Cavalcanti)

Ela jazia abandonada por sobre a calçada. Um e outro pedestre lhe roçaram as pétalas com solas rápidas. Alguém quase a chutara. Pisaram-lhe o caule e ela girou sobre si.

Tais suplícios não lhe roubaram, contudo, o frescor e a beleza. À luz escaldante do meio-dia, sua cor amarela vibrava num incandescente intercambio de energia com o sol.

E os pesados pés em passos apressados passavam perto, alheios à sua presença. Afinal, eram simples mortais mortos de fome, caçando o almoço de cada dia. Correndo e se entrecruzando por caminhos permutados, opostos.

Cada um por si.

Caoticamente.

Queria o destino que simples mortais não a notassem. Era preciso mais.

Era preciso alguém com fome de devaneio...

Quando se dirigia ao edifício de apartamentos onde residia, o escritor sentiu que pisara em algo que era mais perfume que matéria. Quis saber o quê.

Consciente da dificuldade física decorrente da idade avançada, o senhor agarrou-se fortemente à bengala. Abaixou-se com suma cautela, para não se desequilibrar e nem deixar caírem os óculos, sem os quais não enxergava bem.

Cuidadosamente, mansamente, num ademã sonhador, levantou a rosa amarela, deixando estendidas no calçamento três pétalas que dela se haviam desgarrado. Uma aragem litorânea quase descolou as outras pétalas, que se agitaram em ondas como as das águas do Cabo Branco.

O pequeno senhor de parcos cabelos brancos quebrou-se assim, por infinitos segundos – uma mão apoiada na bengala, a outra segurando o recém-encontrado tesouro. Por que seria tão amarela aquela rosa? Por que amarela? Qual o significado escondido por detrás de cada pétala de sol?

Ajustando os óculos de vidros grossos e circulares, tentou decifrar a plurissignificância inerente àquele misto de suavidade e agressividade: A suavidade emprestada pelo aroma, textura e forma. A agressividade da cor.

Sentiu sua vista morrer um pouco. Fechou, por um segundo, as pálpebras. Cambaleou. Teria sido pelos excessos de tão iluminado amarelo?

Ante a vertigem, o senhor se firmou na bengala com ambas as mãos, deixando escapar a rosa. Viu-se a, então, cair molemente ao chão, salpicando pétalas que revoluteavam qual borboletas ao sabor do vento.

Entregue àquele instante de magia, o escritor rendia-se ao palpitar intenso de seu coração. Embaçavam-se-lhe as lentes. Com uma mão, tateou o bolso do paletó.

Encontrou o lenço. Introduziu uma pontinha sob os óculos, bem a tempo de interceptar uma lágrima...

Sentiu-se só! Confinado. Único. Prisioneiro de uma solitude atroz. Solidão só sua. Inacessível. Invisível aos indiferentes transeuntes passageiros de outros destinos.

Mas sentiu, também, toda a energia que cabia nessa sua solidão. Pensou no negativo fotográfico, que a um tempo contrapõe e preentifica uma imagem. Estranhamente, havia uma completude invadindo os vazios de sua alma, fazendo-o perder a noção da gravidade. A bengala já não era seu eixo de equilíbrio. Oscilava, com todo o seu ser.

Vieram-lhe ânsias. Ia vomitar tudo aquilo. Esvaziar-se. Esvair-se. Evadir-se numa última viagem.

Uma brisa mais forte o susteve. Refrescou-lhe o corpo e o espírito. Era o Aracati que compunha um redemoinho de partículas amarelas. De repente, o escritor viu-se no centro da ciranda doirada de pétalas dançantes.

E então se sentiu um agraciado dos deuses.

Sorriu. Ensaiou uma prece sem destinatário definido. Uma prece ao sol, talvez... ou a uma rosa amarela...


Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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