Carta para Juca



(Ana Adelaide Peixoto)

“As pessoas morrem como viveram. Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido”

E você viveu com todos os sentidos . Na vida e na morte!
Dia 05 de Junho - já serão seis anos de saudades. Quanto tempo! E que tempo sem horas é esse! Parece que foi ontem.

Quando penso naquele domingo pela manhã logo cedo quando o médico me deu aquela notícia, a princípio indecifrável, sobre a sua pupila, irreversível. Ao mesmo tempo. Tudo parece longe. Muito longe.

Como te atualizo daqui? Nem sei por onde começar. Começo pela alegria. Seremos avós. Juntos com Fred e Adriana. Quarteto de afeto. Luísa está para nascer. Lucas? Focado e grávido. Nathália ? calma e plena. Eu? Assustada com tantas mudanças.

Sim! Nos mudamos. Daniel e eu. Novo endereço. Novos desafios. Nova geografia da vida. Estamos contentes muito. Com tudo isso. Mas no meu caso, existe um fio de tristeza da vida. Das perdas e danos. E nem é filme... Também me aposentei. O ócio é meu ofício. Mas trabalho muito.

O país? Você não acreditaria. Nem vou contar aqui, nem os céus dariam conta de tanta barbaridade. De balbúrdia! Imagine! estamos perplexos.

Mas olhe, estou lendo A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, da Ana Claudia Quintana Arantes. Sim, como não sou religiosa, procurei ajuda no sutil, no simbólico, e esse livro fala da vida. Apesar do título e do assunto.

Estou sempre a rever aqueles 50 tons de tristeza. O sofrimento – seu , meu e dos queridos. As nossas impotências e fragilidades. As nuances da doença. A solidão. Os cuidados paliativos – que no meu desconhecimento, não me dava conta. E a morte. Aquela hora precisa que, eu não sabia se seria, nem quando seria. Um Boa Noite meio cabreiro e uma dor de cabeça final.

Sim! Eu estava anestesiada. Com uma muralha grande ao meu redor. De outra forma não teria suportado tanta desolação e medo. Protegi-me como pude: Batom, banho de sol, jornal, capela, olhar o céu, ir à farmácia, um café no térreo, uma espiada no facebook, coisas cotidianas para driblar esse mistério inadiável do fim, “..a experiência da dor passa por mecanismos próprios de expressão, percepção e comportamento. Cada dor é única.”

No livro, tenho me confortado em assimilar o que seja empatia, compaixão, medos tantos, cuidados, sobre “a morte – um espaço onde as palavras não chegam”; sobre o indizível “– é a melhor expressão da experiência de vivenciar a morte”. Sobre percepção, urgência, lucidez; sobre o “tempo – transformador não depende de duração”; comportamento na perda e a impressão finda; sobre espera, desejos, esperança; sobre prece, ética, introspecção; sobre o divino; sobre mergulhar profundamente na própria essência; sobre dissolução; sobre saúde, doença; sobre o sagrado, sopro vital, tristeza, agonia; dos fardos, das culpas, das ilusões, dos abandonos, e de saber que a morte não escolhe lugar.

“Acompanhar alguém nesse momento é a experiência mais íntima que podemos experimentar junto a outro ser humano...Estar no lado de alguém que está morrendo é desnudar-se também. Nessa experiência e companhia a alguém que morre, seremos verdadeiros oráculos!”, diz essa médica mais do que sábia e conhecedora dos cuidados todos com alguém que morre. E de alguém que vive.

Depois de tudo, e tanto tempo, e nesses seis anos de ausência, a alegria ainda é a maior ferramenta para se viver. E o amor, claro!

“A graça da morte, seu desastrado encanto, é por causa da vida”. Adélia Prado.

Nossa imensa Saudade! E imensurável amor!

– João Pessoa 01 de junho, 2019

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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