Minha mãe...

Foi no mês de maio que ela abriu os olhos para o mundo e tornou-se uma mulher extraordinária. Foi eximia musicista (ela tocava flauta), funcionária do Telégrafo, por concurso, mãe de nove filhos, dois do primeiro casamento e sete do segundo, sem contar com os que morreram. Todos os partos foram feitos pela parteira. E ela chegou a fazer um parto sozinha. Quando a parteira chegou (isto foi em Alagoa Nova) encontrou-a, sozinha, sorrindo, esperando apenas que a profissional fizesse o resto do trabalho.

Autodidata, leu não sei quantos livros e tinha uma imaginação fora de série. Tanto é assim que inventava muitas historias para contar aos filhos. Mas eu, com o privilégio de caçula, era seu ouvinte especial. E quando eu adoecia de asma, era ela que, alisando meus cabelos, fazia-me esquecer a doença, a febre e a falta de ar.

Nunca me castigou, nunca me repreendeu, nunca me mostrou cara feia. O otimismo era uma constante em sua personalidade. E chegou a decifrar e a fazer palavras cruzadas e charadas. Tinha uma letra lindíssima, de chamar a atenção. E disso ela se orgulhava. E que dizer da voz? Cantava que era uma beleza.

Chamava-se Pia, mas terminou acrescendo a palavra Maria. E dizia: “Maria Pia é nome de rainha.” Sua alimentação era a mais frugal de todas. Comia muito pouco. Daí a longevidade. Ela atravessou os cem anos que foi uma beleza. Enfrentou a velhice com muita garra. Costumava dizer que velhice quer trato. Nada, pois, de relaxamento”. E acrescentava: “não tenho raiva da velhice e sim dos velhos”. Acho que três fatores concorreram para a sua longevidade sadia: leitura, otimismo e alimentação sóbria. Gostava de vestidos coloridos, alegres. Nada de tristeza na indumentária. Foi uma das primeiras mulheres em Alagoa Nova a entrar na moda do cabelo curto. E ela tinha uma cabeleira que ia até os joelhos.

Fez versos muito bem rimados. E a voz? Linda. Lembrar que ela fazia parte do coro da igreja e zeladora do Coração de Jesus. Mas terminou espírita, já que o segundo marido, meu pai, foi um militante daquela nova crença. E leu muitos livros psicografados por Chico Xavier.
Minha mãe, Maria Pia, dona Piinha na intimidade, adorava conversar, passear e viajar. Já o marido era o contrário. Nunca vi duas diferenças de temperamento se darem tão bem.

Nasceu numa cidade do interior paraibano chamada Canafístula, nome de uma árvore. Mas, quando soube que a cidade mudara o nome para Caldas Brandão ficou doente de raiva.

Curioso, ela nasceu no dia 5 de maio, o mês dedicado às mães, comemorado no segundo domingo. E ninguém foi mais mãe do que ela, a quem devo o que sou hoje. Nunca vi seu rosto zangado para comigo. Neste último domingo, dedicado às mães, dei-lhe um presente. O presente de uma prece. Uma prece de agradecimento por tudo que fez por mim.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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