O poder da música

Já vi muitos maestros famosos regendo sinfonias e concertos. Seja ao vivo ou no vídeo, aqui ou no exterior. Lembro-me agora de uma gravação de Bruno Walter conduzindo uma Sinfônica, na 5ª Sinfonia de Beethoven e não me esqueço daquele rosto severo e sereno, sobretudo no adágio daquela peça. Outro que me fascina, não obstante a severidade de seu semblante nazista, é o alemão Herbert Von Karajan. Uma fisionomia compenetrada, mas, sem um sorriso, com cara de quem está com raiva do mundo.

E que dizer do simpático e envolvente Leonard Bernstein? Ah, como eu gosto dele! O homem, não satisfeito com as mãos, termina batendo no tablado com os pés. Chega a dançar em trechos mais ritmados e alegres. Eis aí uma regência que muito me comove. Estou, agora, através da imaginação saudosa, me lembrando do grande Eleazar de Carvalho, que regeu a Nona Sinfonia de Beethoven com a nossa orquestra sinfônica. Austero sem ser severo. O grande maestro refletia no rosto toda a beleza da genial sinfonia.

Maestros! E as maestrinas? Impossível não lembrar de Elena Herrera, uma cubana de alto astral que também regeu a nossa Sinfônica, deixando-nos uma boa impressão. Atualmente, ela era regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, em Brasília, mas, há poucos dias, desencarnou, vítima de câncer. Eu gostava muito de sua maneira de reger, como que querendo voar, sair do tablado em busca de outros caminhos. E ela se comunicava bem com o público, não só com as suas excelentes interpretações, mas também através dos gestos. Tão diferente do Karajan...

Outro com quem muito me entusiasmei, também maestro de nossa Sinfônica, foi o jovem Marcos Arakaki, não só pelo dedicado trabalho de ensaio, nos bastidores, mas pela maneira eloquente na condução da belíssima e inesquecível "Sinfonia Novo Mundo", de Dvorak. Com que empolgação ele regeu a famosa peça do compositor tcheco. Havia momentos em que tive a impressão de que ele voasse, ou melhor, que levitasse no palco do Teatro Banguê, cuja assistência o aplaudia freneticamente. Arakaki não só regia como explicava, didaticamente, todas as peças do programa. Transformava, por um momento, o auditório em sala de aula – e isto é que é importante. A assistência, em silêncio, ouvia atenta as suas oportunas explicações. É assim que se vai educando o povo para a música erudita. E havia momentos em que se empolgava tanto com a obra, que a gente tinha a impressão de que ele era a própria música. E isto me fez lembrar Paulo de Tarso, que depois que descobriu Jesus, dizia que “já não era ele que vivia, e sim o Cristo que vivia nele”. A música tem esse poder. O poder que nos faz transcender em direção a Deus.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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