O adágio da Nona

Quando eu ouvi, pela primeira vez, a Nona Sinfonia de Beethoven, disse para mim mesmo: isto é Deus falando… E fiquei a imaginar como o admirável gênio de Bonn, que não tinha mestrado, doutorado, nem pós-doutorado em Música, sofrendo com sua surdez e suas frustrações amorosas, foi capaz de criar uma obra tão divina.

Mas, o que seria de Beethoven sem a música? Esta foi o que o fez se livrar das misérias do mundo. Graças à música, ele pôde transcender, sublimar-se, atingir o êxtase, a comunhão com o divino. Beethoven bem que poderia dizer como Paulo em relação ao Cristo: “Não sou eu quem vivo, é a Música que vive em mim".

Feliz daquele que se eleva e se enleva com a mensagem da boa música. Fico triste em saber que há muita gente que nunca ouviu essa sinfonia sublime, sobretudo o seu magnífico adágio, que faz a gente esquecer as trevas do mundo e se iluminar.

Eu ainda não conheço melhor terapia do que ouvir o adágio da Nona. Difícil, senão impossível, sair dele com os mesmos olhos, com a mesma visão das coisas, com os mesmos sentimentos de ódio, de inveja, de vaidade, de orgulho, de rancor. É difícil ouvi-lo e não sentir uma forte catarse. É impossível não sentir aquele amor que não vê inimigos, aquele amor que faz esquecer as mesquinhezas da vida, aquele amor que não conhece limitações.

Eu nem consigo imaginar que possam existir músicos que, numa orquestra, toquem os seus instrumentos sem se envolver com a música, completamente alheios à sua sublime mensagem, agindo mecanicamente. Não, diante da Nona.

Mas, eu estava assistindo, há pouco, à Nona Sinfonia, quando passou um carro de propaganda com o som naquelas alturas... Era o inferno querendo atrapalhar o céu, as trevas atropelando a luz, a estupidez humana se fazendo presente.

Adágio da Nona! É aconselhável ouvi-lo, mas, quando todos os fazedores de barulho estejam dormindo...
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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