A palavra falada

A palavra falada é uma dádiva, uma benção, uma beleza. Ah, os grandes discursos de antigamente! Como eles movimentavam e magnetizavam multidões! Digo de antigamente porque hoje a preocupação é mais com a verba do que com o verbo...

Sem me referir aos grandes oradores do passado, gostaria de evocar os daqui da Paraíba. Disse meu pai que o orador paraibano, que mais o impressionou, foi o presidente João Castro Pinto. Informou meu velho que ouviu Castro Pinto no Teatro Santa Rosa, num discurso eletrizante, que o deixou sem dormir.

Dizem que o presidente Epitácio foi outro excelente orador. No seu busto, situado na entrada da avenida que tem o seu nome, vemo-lo, numa tribuna, de dedo em riste apontando para alguma coisa. E esta coisa era justamente o nosso sertão, dominado pela seca e pela fome. Da tribuna do Senado ele chamava a atenção para aquela grande realidade. Era o orador colocando o seu verbo a serviço do nosso esquecido Nordeste.

Mas será que houve orador, pelo menos aqui na Paraíba, maior do que Alcides Carneiro? Ele foi tão grande que o próprio Carlos Lacerda, um artista do verbo, o qualificou como “O Orador do Brasil”. Comício sem a presença do tribuno de Princesa Isabel não era comício. Eu não perdi um. E me lembro quando, certa vez, no adro da Catedral, mal começou seu discurso, desabou uma grande chuva. As palmas estrugiram. Ele, todo molhado, elevou as mãos para o céu e bradou: "Palmas, benção dos homens, chuva, benção de Deus!” Aí foi que bateram palmas. E prosseguiu o discurso dizendo que porta de igreja é para mendigo. E ele estava, ali, mendigando votos aos paraibanos.

Imaginação fértil, Alcides, quando ia fazer um discurso, não ia para a biblioteca, estudar e sim para uma rede se balançar. E ali ficava botando a sua fértil imaginação para funcionar, preparando a sua oração.

Outro orador que movimentou multidões foi José Américo de Almeida. Seus discursos abalaram o país. As frases geniais ficavam ressoando aos nossos ouvidos. Eram verdadeiros “discursos-denúncias”.

Aquele em que ele dizia: “eu sei onde está o dinheiro!”, se aplica até hoje. Agora, com a Lavajato, é que todos sabem... E aquele outro: "Não há maior tragédia do que morrer de fome na Terra de Canaã!", referindo-se ao Brasil... E por fim: "Ninguém se perde na volta”...

Na verdade, aqui pra nós, eu acho que os que não sabem falar é que estão inventando que a oratória está fora de moda...
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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