Morte na família

Em toda família houve mortes. É óbvio. Meu irmão Alberto, quando pequeno, ficava sentado no chão, perto da mãe, costurando. De repente, mamãe notou que o menino chorava. Preocupada, perguntou: “O que foi, algum bicho lhe mordeu?” Não, é que estou pensando que, um dia, a senhora vai morrer”. A mãe sorriu, deu-lhe muitos beijos, e disse: “Não. Não vou morrer agora não, e deixe de besteira”.

Meu pai morreu aos oitenta e dois anos. Minha mãe foi mais longe, entregar sua bela vida a Deus. Atravessou o século, sorrindo. Digo bem: sorrindo, pois nunca vi uma mulher tão otimista. Sua alimentação? A mais sóbria possível, sem esquecer o ponche diário de laranja com cenoura. Gostava de cantar, gostava de ler, gostava de conversar, decifrava as chamadas “palavras cruzadas” e as charadas, nem é bom falar.

Minha mãe era muito bonita e tocava flauta. Já meu pai, não foi tão longe como ela, na idade, pois teve problemas com a próstata.

Tive um tio extraordinário, chamado João Augusto. Morreu solteirão, e se você lhe contasse a façanhas de uma pessoa, ou que alguém havia ficado muito rico, ele apenas dizia, sorrindo: “Mas, morre...”

Meu irmão mais velho, Mário, morreu de fumo. Ainda cheguei a vê-lo, no hospital, arquejante e lamentando muito por ter fumado.

Eu ainda estou vivinho da silva. Fui fumante exagerado, até que, um dia, senti o coração palpitar, a ponto de pular fora. Consequência do cigarro. Larguei-o, logo.

Hoje, com meus dois filhos queridos, Carlos e Germano, sinto-me feliz, pois ambos são infensos ao fedorento vício do fumo. Cigarro rima com catarro e pigarro, que são consequências de quem fuma.

Há uma modinha que termina assim: “Adão, foi feito de barro, colega, me dê um cigarro”. Dê não, leitor. Lembre-se de que o famoso Freud era um fumante exagerado até que contraiu câncer na boca, de cujo mau cheiro seu gato corria como o diabo da cruz.
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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