O medo do avião

Há o medo do avião e o medo de avião. Carlos Drummond de Andrade escreveu um belo poema sobre a morte no avião. E chega a dizer que quem morre no avião, morre verticalmente. Tem muita gente que não gosta de ler esse poema...

Desejo escrever sobre o medo do avião que, sem dúvida, ocorre e ninguém pensa nisso. Antes do vôo, há muitos preparativos dentro da aeronave, que, pela repetição, entediam. Lá fora, o avião espera, angustiado, o vôo que o levará lá para cima. A subida é vertical, enquanto o vôo é horizontal, até alcançar a velocidade de cruzeiro.

Todos se arrumando, guardando suas bagagens de mão, apertando os cintos e o avião calado, esperando a hora de partir. Mas eis que chegou a vez de acelerar, correndo macio, dentro da longa pista. O avião vai sair da terra para o ar, isto é, vai decolar. O português diz uma expressão mais apropriada: descolar. Sim, o avião descola do chão. Mas, para descolar, que é uma operação difícil, a aeronave precisa de uma longa pista, toda a força do motor, momento em que ele usa toda a sua potência. Eis um momento que faz um friozinho correr pela minha espinha.

Acabou-se a descolagem e começa a viagem com a aeronave atropelando nuvens. Eis aí um espetáculo que muitos não querem nem imaginar, quanto mais ver. Eu não me canso de olhar... Tudo vai se diminuindo! Mas, o que faz medo mesmo são as quedas. As quedas no vácuo. Tenho uma neta, que se chama Raissa, que durante um vôo para Petrolina, se divertiu muito com as turbulências. Disse que foi a melhor parte do voo.

Outro momento, talvez o mais dramático do vôo, é o da aterrissagem, que o português chama aterragem. O que está certo, mais uma vez.

Dizem que são dois os momentos mais perigosos. Decolar e aterrissar. Aterrisar exige muita habilidade do piloto, sobretudo quando há chuva e muito vento. Daí, os passageiros, vez por outra, baterem palmas parabenizando o comandante pelo êxito da operação. Se a aeronave não aterrissa bem, o silêncio e o suspiro substituem o aplauso.

Mas que saudade de um vôo de avião!... E esqueçamos o poema de Drummond. Dizem que o nosso Ariano Suassuna tinha muito medo de morrer, verticalmente.

E concluimos: Não somos nós que temos medo de avião. O avião também tem...
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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