A maior dor do mundo

Qual é a dor maior do mundo? Eu diria, sem pestanejar: a dor da ausência. Conheci um homem que adorava seu filho, um bonito e inteligente jovem com quem convivia muito bem. De repente, o menino fora atropelado por um carro. Quando o visitei para lhe dar os pêsames, observei que ele apenas andava de um lugar para outro. Não botou uma lágrima. Não disse uma palavra. Andar, em silêncio profundo, talvez lhe atenuasse a dor.

Horrível, de repente, se ver sozinho no mundo. Mas a vida é feita de presenças e ausências. De sorriso e de choro. Ninguém se livra da lei. O homem que perdeu o filho não deu uma palavra. No rosto não escorria nenhuma lágrima. Mas tudo passa. A vida não deixa o choro por muito tempo. Depois vem a conformação. Depois, quase ninguém mais se lembra do choro, que é substituído pelo sorriso.

Mas há aqueles que sabem transformar sua saudade numa constante presença. E assim, sofrem menos. E agora estou me lembrando, como grande exemplo, dw Clemilde, viúva do nosso querido Afonso Pereira. Como ela soube ela transformar a sua saudade numa presença. Organizou um arquivo com um precioso acervo e o encheu de livros, documentos e lembranças do marido. Entra naquele recanto como se o amado ali estivesse. Lembro de que há muitos exemplos de heróicas viúvas que souberam conservar a memória do marido com muita resignação, com muita fé. Viúvos e viúvas.

Mas, aqui para nós, voltando à saudade, não há maior dor do que a dor de uma ausência.

Agora estou me lembrando de José Américo de Almeida, viúvo. Como sofreu com a morte de dona Alice, sua esposa. Sua solidão aumentou, a ponto de, certa vez, ele bradar: “Minha casa não tem mais diálogo”. Haverá maior desespero do que este?

O diálogo é tudo em nossa vida. Conquanto o monólogo também seja, o diálogo é vida intensa. Precisamos da companhia do outro. Precisamos desabafar as nossas mágoas.

A dor de uma ausência tem cheiro de morte. Ele disse, com uma enorme tristeza, num desabafo dramático, digno do grande homem que foi. “Na minha casa não há mais diálogo”. O diálogo é vida.

Eu já sofri a dor da ausência. Mas me comportei muito bem. Quem leu o meu primeiro livro A Dança do Tempo, verá que ele foi feito de lágrimas.
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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