Os grandes homens da limpeza

Quando os homens de vermelho aparecerem à sua frente, faça uma reflexão. Lembre-se que eles limpam a sujeira que você deixa na rua. Os homens de vermelho merecem todo o nosso respeito e admiração. E lembre de que enquanto você passeia, faz cooper, se diverte, eles trabalham.

Outrora, eram chamados homens do lixo. Ora, homens do lixo... Homens do lixo somos nós que sujamos as ruas, as praças, e as praias. Eles são homens da limpeza. Aliás, não sei se você reparou suas indumentárias vermelhas onde agora se lê “agentes da limpeza urbana”. Gostei do eufemismo para “homem do lixo”.

Agora preste atenção ao trabalho deles. Veja como é duro varrer o lixo. Muito diferente desse meu trabalho macio e limpo em que as mãos digitam as teclas do computador. Um trabalho sem suor. Mas os homens de vermelho suam por todos os poros. Haja vassoura pra lá e pra cá. E quase não conversam. Trabalham em silêncio.

Homens de vermelho, agentes da limpeza pública, graças a eles tudo fica livre da sujeira. Um trabalho muito suado. Eles dão duro no serviço. Só em olhá-los trabalhando, deixa a gente cansada. A vassoura e a pá são seus instrumentos de trabalho, assim como o estetoscópio é do clínico, o código é do juiz, o bisturi é do cirurgião, a palavra é do professor, a escrita é do jornalista e do escritor.

Em Paris, os agentes da limpeza pública usam roupas verdes. Até nisso a cidade-luz é ecológica. Tanto é assim que é tida como a mais verde do mundo.

Os nossos agentes vestem-se de vermelho. Seria alguma alusão ao vermelho de nossa bandeira revolucionária? Não sei. Só sei que eles chamam logo a nossa atenção com a cor de suas vestes. Cor de sangue.

Pena que ganhem tão pouco, que não sejam enaltecidos... Nada de gratificações extraordinárias, de gordas aposentadorias e muito menos de mensalões...

Estive reparando o trabalho deles. Acho que, à noite, quando forem se deixar, o corpo todo está dolorido. Quanto cansaço, meu Deus do céu! Coloco-me no lugar deles.

Será que agora pela Páscoa eles tiveram direito a umas festas? Será que seus filhos tiveram ovos de chocolate e mesa farta? Será que o coelhinho da Páscoa foi bater na porta deles? Tomara que sim. Não faltará alma bondosa para tal lembrança.

Agentes da limpeza, outrora homens do lixo! Do nosso lixo, o lixo que jogamos fora. E agora me veio à lembrança aquela greve, na turística e bela Amsterdam, que, de uma hora para outra virou um monturo. Por pouco os urubus não pousaram nas suas praças, nas suas avenidas, nas suas pontes para decepção de Rembrandt e Van Gogh. Os homens da limpeza pública resolveram cruzar os braços. Foi um Deus nos acuda... Que eles nunca mais precisem cruzar os braços.

Agora, na Semana Santa, nenhuma festa de confraternização para eles. Isto fica para os de cima, os produtores do lixo. Lixo que eles recolhem com muito suor, e, talvez - quem sabe? - com lágrimas...
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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