A catarata da indiferença

Quando eu cheguei à praia, não quis acreditar no que via: o mar todo iluminado, sob um sereno céu azul, que me deixou maravilhado. Aí eu disse para mim mesmo: que bela manhã para se colocar num quadro! E imediatamente, veio a reprimenda do bom senso: por que você quer prender esta bela manhã numa tela? Não seria isso um tremendo egoísmo?

Absolutamente – retruquei. Colocando-a numa tela, a manhã se eternizaria. Não é essa a finalidade da arte? Fazer com que o efêmero se eternize? Esta manhã, que está neste momento extasiando meus olhos, pouco mais se extinguirá. E o que ficará deste flagrante de beleza?

A função da arte é transformar a efemeridade em eternidade. Mas, como não sou pintor, e sim cronista, cronista do efêmero, deixe- me ficar fruindo esta manhã que me chega de graça, graças a Deus... Pus-me a contemplá-la comovido e embevecido, o vento soprando e sobrando.

Aí me veio esta reflexão: é impossível ter maus pensamentos, numa manhã assim. Impossível alimentar ódios e ressentimentos, sujar a alma com nossas negatividades mesquinhas diante desse mar faiscante de luz, desse firmamento azul, sem um fiapo de nuvem.

E como naquele instante transitassem pessoas indiferentes à paisagem ao seu redor, senti uma profunda pena de tão pétrea indiferença. Sim, muita gente caminhando num automatismo de máquina. Conversavam, mas sobre assuntos prosaicos. Falavam sobre contas bancárias, inflação, preços de apartamentos, taxas de condomínio, eleições, violências na Síria, o terremoto do Nepal, coisas que deveriam ser comentadas em outra ocasião e em outro local, mas, diante de um espetáculo tão bonito como o que a manhã oferecia aos nossos olhos? Tenha paciência, é prosaísmo demais para o meu gosto...

Veio-me então um mau pensamento. Foi como se um anjo mau cochichasse ao meu ouvido, dizendo: “estas pessoas deveriam ficar cegas. Cegas pelo pecado de não reverenciarem as belezas da vida”.

Ora, ora, cronista, essas pessoas a que você está se referindo, já estão cegas e não sabem. A indiferença é uma espécie de cegueira. Quem não se comove mais com uma lua boiando num mar de nuvens, quem não presta a atenção a um jardim, quem não olha mais para um céu estrelado, quem não contempla um bando de crianças brincando numa praça, quem não olha mais para um flamboyant florido, não tenham dúvida, está cego e não sabe...

Deus enfeitou a Natureza para despertar alegria no homem, para torná-lo otimista ao invés de pessimista. E viva a “paisagem-terapia”.

Cuidado, portanto, com a catarata da indiferença diante das belezas da vida. Esteja antenado para as maravilhas do mundo. Lembre-se daquele amável e poético convite de Jesus, pedindo que olhássemos os lírios do campo e as aves do céu, e nada de preocupações. Vivamos o aqui e agora. Bastam a cada dia os seus cuidados, ensinou o mestre dos mestres. E cuide logo de tratar ou prevenir da catarata da indiferença. É pior do que a cegueira.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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