A mente, as mãos, os pés...

Começo dizendo: nada é inútil nesta vida, tudo tem a sua utilidade, seu lado bom. E quando a aparente inutilidade serve à utilidade, temos que aceitar a contradição. É a vida expressando-se nos seus contrastes. E a beleza da vida está na harmonia dos contrastes.

Que seria da planta sem o estrume? Que seria da vida sem a morte? Que seria do amor sem o ódio? O ódio é vibração desviada, energia equivocada.

Temos os pés, temos as mãos. Jesus utilizou muito bem os dois. Com as mãos aplacou tempestades, expulsou maus espíritos; com os pés caminhou léguas divulgando a Boa Nova. Com as mãos restituiu vista aos cegos, limpou leprosos, com os pés passeou no Mar da Galiléia, nas praias de Cafarnaum, como se estes fossem avenidas...

As mãos! Vou beijá-las, já, já. E os pés? Difícil, não? Nem com anos de alongamentos ou Pilates...

E a mente? Este é o nosso tesouro, que Deus colocou lá em cima. O diamante que tanto reflete a lama como a luz. Ah, os bons pensamentos! Pensamentos de amor. Pensamentos positivos.

Que seriam das nossas caminhadas sem os pés? Eis uma obviedade que não devemos esquecer. Lamentável quem não os tem.

Pés e mãos. Minha Alaurinda sempre está dizendo: “vou fazer, hoje, pés e mãos lá em Anthony. E quanta gente, ali, cuidando da beleza física, da aparência externa.

Pés e mãos! E chega Alaurinda, como faz Germano sempre, me trazendo o Concerto nº 2 para piano e orquestra, de Rachmaninov, para ver e ouvir. A pianista é linda, e suas mãos dançam no teclado que é uma beleza. Viva as mãos. E os pés? Estão lá embaixo mexendo nos pedais, que ninguém vê, mas que têm uma grande importância no fraseado musical.

Ah como os pés invejam as mãos! E quando termina o concerto, aí é que as mãos vibram, aplaudindo e fazendo inveja aos pés, embora, algumas vezes, os músicos, por estarem com as mãos ocupadas segurando seus instrumentos, aplaudem o maestro batendo com os pés no tablado.

Mas, quem vai esvaziar o teatro? Serão as mãos? Não, são os pés que levam toda aquela gente de volta para casa... Afinal, não esqueçamos de nada, tudo é útil, nesta vida!
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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