A morte nossa de cada dia

Foi um texto do ex-presidente e escritor Fernando Henrique Cardoso que me levou a escrever, hoje, sobre a morte, num livro recém-publicado em que ele alude aos seus vem vividos oitenta anos. Mas, aqui para nós, quem mais coragem teve de aludir à problemática da morte foi o nosso Augusto dos Anjos, que apelidou a morte, dentre outros apelidos, de “universitária sanguessuga”.

O extraordinário Paulo de Tarso, em face da reencarnação, interrogou: “Morte, onde está a tua vitória?” E viva a vida além da vida.

Continuemos com a crônica. Lembro que meu irmão Alberto, com apenas quatro anos, costumava ficar junto da nossa mãe, sentado no chão, enquanto ela costurava. E eis que, um dia, ela viu o menino com os olhos molhados de lágrimas. Daí perguntou: “por que está chorando, meu filho?” E ele, quase soluçando, resmungou. “Estou chorando porque, um dia, você vai morrer”. A precocidade do menino foi impressionante.

Mas são poucos os que se lembram que, um dia, não estarão mais aqui no mundo. Meu tio João Augusto, velho agricultor em Alagoa Nova, tinha uma grande consciência da morte. Tanto é assim que, quando alguém aludia à riqueza de alguém, dizendo que “fulano estava muito bem de vida”, ele costumava dizer. “Mas, morre...” Era um cético, que não chegou a se casar, vindo a morrer de câncer.

O grande Marechal Rondon, o desbravador do nosso sertão, dizia. “Morrer, sim, matar nunca”.

Informam que as freiras de um convento, na Espanha, cumprimentam as suas irmãs, toda manhã, lembrando-lhes que morrerão, um dia. E, aqui para nós, não faz mal, vez por outra, a gente se conscientizar dessa realidade. Pois essa conscientização mudará um pouco nosso comportamento.

Lá no cemitério Père Lachaise, em Paris, no túmulo de Allan Kardec, Codificador do Espiritismo, há a seguinte inscrição: “Nascer, morrer, renascer ainda, e progredir sempre, tal é a lei”. Que mensagem otimista, hein?

Voltando a Fernando Henrique, Cardoso, ele disse ainda, em suas declarações sobre a morte: “Não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos. Ficamos velhos, porém mais maduros.” Muito bem. A beleza da velhice está na experiência vivida, na madureza. Agora quanto à ignorância, quanto ao nosso destino, eu gostaria que o ex-presidente lesse o extraordinário livro “O problema do ser, do destino e da dor”, de Léon Denis”. E eu vou mandar o livro para ele.

A verdade é que viver pensando que tudo se reduzirá a cinzas, não deixa de ser um grande martírio. E muita gente procura esquecer a grande realidade, levando uma existência de distração, de alheamento, e não de reflexão. E haja divertimentos, e haja consumismo, e haja diversão, menos reflexão. É preciso lembrar que distração é como aquele ópio quanto à religião, a que se referia Karl Max.

E quanto ao nosso Fernando Henrique, vou enviar para ele, já já, “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, juntamente com o de Léon Denis, que citei acima. Ele merece.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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