O sorriso é próprio do homem


Dizia Rabelais que o riso é próprio do homem. Reparando bem, o grande gênio francês tem razão em parte. Embora observemos que árvores sorriem com suas flores, as estrelas com a sua luz. Dos animais, o cachorro é uma exceção. Não ri pela boca, mas com o rabo...

A Mona Lisa celebrou-se com o seu sorriso, por sinal muito sem graça, embora os críticos de arte o vejam como “enigmático”. Fui vê-la só duas vezes. Apesar de ir com certa frequência ao Louvre, não desejei mais ir à sala da Gioconda. E haja gente para ver aquele seu meio sorriso, a começar pelos asiáticos. Chego a pensar que a Mona já não agüenta mais tantos olhares dirigidos a ela. Acho que quando o Louvre fecha as suas portas, a Mona Lisa, ao invés de um sorriso, dá uma grande gargalhada mangando de todos.

Voltando ao sorriso, feliz de quem o conserva. E haverá sorriso mais belo do que o da mãe para o filho renascido? Tenho muita pena das pessoas carrancudas, das pessoas sérias demais. É preciso lembrar que o sorriso alegra o ambiente. O sorriso dá paz, dá saúde.

É verdade que, às vezes, o sorriso se transforma em gargalhada. Dir-se-ia que a gargalhada é uma espécie de disenteria verbal. Mas o bom mesmo é o sorriso suave. E sabe que, sorrindo, você se torna mais jovem? Sim, pois o sorriso espalha as rugas. Vá ao espelho e experimente.

Dizem que Jesus não sorria. Protesto. Jesus sorria através do meigo olhar. Aquele olhar que nos convidou a observar os lírios do campo. E quando o mestre disse vinde a mim as criancinhas, será que foi com o rosto sem sorriso? Duvido.

O sorriso é a mensagem dos otimistas, dos que estão em paz com a sua consciência, dos que só vêem o lado bom da vida, dos que estão em paz com a sua vida interior.

O mestre Ariano Suassuna, que era todo sorrisos, em uma de suas entrevistas, disse que “o otimista é um tolo. O pessimista, um chato e que bom mesmo é ser um realista esperançoso”. E disse isso sorrindo o seu sorriso mangador. O otimista, meu risonho Ariano, é que tem contribuído para o progresso. Otimistas foram os grandes descobridores, os grandes inventores, os grandes artistas, os grandes cientistas.

Ah, como é bom estar ao lado de um otimista! Minha mãe foi uma otimista e tanto, que atravessou um século de existência, sorrindo.

Portanto, não apague a luz de seu rosto. A luz do sorriso. Vá ao espelho sorrindo e ele lhe devolverá o riso com outro sorriso.

Se não estou enganado, os robôs não sorriem. E se sorriem é um sorriso muito mecânico. Mas o sorriso do homem é diferente. Afinal, a vida é um espetáculo e onde há espetáculo há riso, há alegria. Ariano transformou suas aulas em espetáculos fazendo todo mundo sorrir. E não há nada que agrade mais, levando-nos ao sorriso, do que a surpresa de uma descoberta. Fico, então, a imaginar o nosso Santos Dumont sorrindo ao ver seu avião contornando a Torre Eiffel, embora, depois, chorasse de tristeza quando soube que sua invenção estava a serviço da guerra...
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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