Humildade e perdão

Jesus, como é sabido, teve como berço uma manjedoura. Nasceu entre animais, longe do luxo. Mas essa manjedoura, na noite em que ele nasceu, iluminou-se com a forte luz de uma estrela. Nenhum palácio gozou desse prestigio.

Um famoso escritor italiano, cujo nome se esconde agora na minha memória, disse que os cristãos ricos, que nasceram em luxuosos palácios, sem dúvida, sentem uma grande vergonha de seu deus ter escolhido lugar tão humilde para nascer. Se fosse num apartamento ou numa cobertura de luxo...

Outra coisa que os cristãos ricos lamentam: Jesus haver escolhido para mãe uma mulher simples, uma mulher do povo. A mesma coisa em relação ao pai, um humilde carpinteiro, que, decerto, fez muitos móveis e, sem dúvida, muitas cruzes. E eu fico na dúvida se entre estas cruzes, não estaria a que Jesus foi pregado, depois de uma longa caminhada sob os açoites da multidão que o acompanhou até o Gólgota, o “monte da caveira”. Dizem que ele caiu três vezes, pois a cruz era muito pesada, até que um cirineu o ajudou, a pedido da multidão desvairada. Seu rosto sangrava devido aos ferimentos da coroa de espinho que lhe enfiaram na cabeça. E deveria ter sofrido uma grande dor. O sangue escorria pelo rosto. Jesus não deu um gemido. Tudo suportou em silêncio. As mãos, suaves como pétalas, que tantas curas promoveram, iam sofrer dolorosas marteladas. Mãos que suavisaram tantas dores...

Pagava pelo crime de ser bom. O crime de dar vista aos cegos, movimentar paralíticos, limpar leprosos, aliviar obsediados, multiplicar pães para a multidão faminta, pregar o amor, a caridade, a justiça.

Morto de cansado, o suor escorrendo pelo rosto, eis que o pregam na cruz de madeira, com cravos enormes. A cruz que saiu de uma carpintaria. Teria sido da carpintaria do pai? Ah, cronista curioso...

E eis Jesus entre dois ladrões. Pediu água para matar a sede e lhe deram vinagre. Mesmo assim, exausto, quase morto, ainda teve ânimo de dizer para os seus algozes: “Pai: perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem”. Que exemplo de compreensão, sabedoria e amor ao próximo...
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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