A mais difícil das receitas

Um padre entra num banco e intromete-se numa fila. Mas ele não usa as pernas, pois está sentado numa cadeira de rodas. Mais ainda: quem empurra o veículo é um empregado de seu instituto. O padre é gordo, a batina um pouco surrada, e transmite uma paz com sua presença humilde.

Por que esse sacerdote entrou num estabelecimento bancário? Para depositar dinheiro ou retirá-lo? Nada disso. Ele está ali para pedir esmola. Esmola não para ele, mas para os outros, isto é, para os seus pobres, que são muitos. Mais ainda: ele, como já disse, mantém um instituto, onde os jovens daquele tempo iam aprender datilografia. Datilografia que hoje se aplica no computador.

Mas voltemos ao padre. Sabe como ele pede esmola? Cutucando as pessoas pelas costas com uma varinha. A pessoa se vira, meio assustada e ele pede: “um dinheirinho para os meus pobres". Difícil negar o seu pedido, pedido tão humilde e que chega a comover. Ora, tanta gente preocupada com os seus negócios, e aquele, esquecido de si mesmo, rogando ao auxilio para os outros, para os mais carentes.

Seu nome, tenho certeza que o leitor já sacou, se for de certa idade. Estou aludindo ao padre Zé Coutinho, o extraordinário Padre Zé, que levou toda existência a serviço dos mais desfavorecidos da vida. Um homem que se fez mendigo para ajudar aos outros. Conheci esse divino sacerdote. Ele foi colega do meu pai, quando ambos eram seminaristas. Meu pai o admirava muito. Quase sempre, quando se encontravam, o padre Zé Coutinho ia logo perguntando: ”Como vai o teu Espiritismo, Zé?" ”Sim, ambos se conheceram no Seminário, ali no Convento São Francisco.

Padre Zé Coutinho só tinha uma religião: a religião do amor. E Jesus identificou seus discípulos por muito se amarem.
Eu gostava dele e ele de mim. Lia e comentava minhas crônicas no jornal A União. Mantinha um programa na Rádio Tabajara e escrevia neste jornal.

Nunca soube enriquecer. Tirou muito dinheiro dos ricos para dar aos menos favorecidos. Costumava chamar a gente de “prezado”.
No cemitério da Boa Sentença tem uma escultura em sua homenagem. Gostaria que erguessem uma estátua ou um busto, na chamada Praça do Bispo, onde funciona ou funcionava o seu instituto. Padre Zé Coutinho! Um autêntico missionário. Não há coisa mais difícil no mundo de que “amar aos outros como a nós mesmos”. Uma receita nada fácil de ser cumprida. Mas o padre Zé cumpriu-a. Como cumpriram Chico Xavier, Maria Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Albert Shweitzer, Gandhi, Francisco de Assis...

No exercício da caridade usou os pés até quanto pôde. Estou ouvindo, agora mesmo, a sua voz: “Um dinheirinho para os pobres, prezado”. Era difícil ficar indiferente a essa rogativa... E eu fico a imaginar o Padre Zé voltando para casa levando a paz dentro de si. A paz que vem da consciência do dever cumprido.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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