O Sítio, meu paraíso!

Só em me lembrar dele, sinto um cheiro de terra. E terra lembra chuva. E chuva mata o calor. Minha mãe nunca avisou: “saia da chuva!” A chuva era sagrada. O sítio todo molhado não era mais um sítio, era um paraíso. E foi naquele paraíso que passei grande parte de minha infância. Lembro-me quando papai falou em comprá-lo, lá na lagoa, hoje Parque Sólon de Lucena.

Ele não pensava noutra coisa. Estava com saudade do cheiro da terra, lá do sítio de Alagoa Nova, onde cultivou café, por muitos anos. E dizia para minha mãe: “estou calvo devido ao cafezal, que arrancou meus cabelos com os seus ramos...” Sorrindo, ela dizia: “deixe de mentira, Zeaugusto. quem está arrancando teu cabelo é o tempo”. E haja risadas. Nada como o humor para adoçar a vida...

O plantador de café estava com saudade da terra, da natureza. O sítio da Lagoa amenizaria essa saudade. E eu não cabia em mim de contente. O coração batia ansioso. Os meus irmãos também. Deixar a Rua Nova, sua calçada, seu calçamento, seus automóveis, e passar a morar entre fruteiras, deixava-nos ansiosos.

E o que mais me entusiasmou foi quando vi meu pai contando as notas de mil reis, em cima da mesa. O dinheiro que iria comprar o sítio, que beleza! Quem nos vendeu o paraíso foi uma viúva, de nome Dona Zulima. Tive pena dela. Sim, paraíso não se vende...

Meu pai não cabia em si de contente. Nasceu para a vida do campo, embora, anos depois, fosse bater num birô de repartição. A praga que arrasou o cafezal do brejo, deixou meu pai sem emprego. E ele nasceu para o trabalho do campo.

A lagoa só tinha 3 sítios. As ruas empoçadas. Nada de calçamento. Nosso sítio rivalizava em tamanho com os sítios do senhor Porter e do senhor Dias Pinto, este pai do violinista Agmar, hoje, gozando uma tranqüila aposentadoria. Um homem fino, elegante, educadíssimo, cujo violino alegrou muitas noites.

Afinal, o nosso sítio foi comprado. Eu vi papai dando as notas a dona Zulma. Ela deixou-nos dois cachorros: "Bunque" e "Iglô". O primeiro branco e preto, muito ativo, o outro todo branco e preguiçoso. Como gostava deles! Bunque era o meu predileto. Inteligentíssimo. Só faltava falar. Foi meu companheiro de infância. Cheguei a confessar à minha mãe que desejaria ser cachorro...

O sítio ficava onde hoje é a rua Santos Dumont, na Lagoa. Ia desembocar ali perto do Tambiá Shopping. E como este paraíso de minha infância continua vivo na minha imaginação e na minha memória! Que cheiro bom ele exalava... Que silêncio... Centenas de árvores. Árvores de todas as frutas: manga, abacate, jaca, jambo, abricó, fruta-pão, goiaba, além de coqueiros, laranjeiras, sapotizeiros, oitizeiros, e tantas outras... Quando penso que todo aquele paraíso foi, um dia, destruído pelas casas e avenidas, sinto um nó na garganta.

E a nossa casa? Um elegante chalé, ladeado de longos alpendres, onde eu corria de velocípede imitando os bondes... E o bonito mesmo era a plantação de crótons, que meu pai aguava, todos os dias e cujo serviço passou para mim. Quando eu os aguava e os crótons balançavam agitados pela brisa, meu pai dizia: eles estão lhe agradecendo”. E eu acreditava.

E a Lagoa? Rodeada de fruteiras, inclusive de tamarindeiros, uma frutinha azeda de fazer careta. Ali acampavam os inesquecíveis circos, com seus palhaços, seus trapezistas, seus animais amestrados, não esquecendo aquela linda moça caminhando sobre um fio e segurando uma sombrinha colorida. E eu morrendo de medo que ela caísse. Se ao menos caísse em meus braços...

O sítio da Lagoa, meu paraíso da infância, depois conto mais...
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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