Ninguém está vendo isso...

São dois bustos. Não são bustos femininos, leitor curioso. São tradicionais bustos de bronze. Bustos de gente célebre, um almirante e um estadista. Ambos ocupando as extremidades da nossa principal avenida, que tem o nome do primeiro busto: Epitácio Pessoa, que fica no início desta grande e nobre artéria, quase um “boulevard”. Lá, vemos o estadista de dedo em riste, apontando para o fim da extensa via pública, donde antes se avistava o mar. Atrás dele, está a praça mais bela da nossa Capital: a Praça da Independência, onde o presidente João Pessoa morava, e, ainda manhã cedinho, costumava dar o seu passeio diário.

O busto de Epitácio aponta para o mar de Tambaú, a mais de seis quilômetros. Mas, ao mesmo tempo, simboliza um gesto histórico do estadista, quando na tribuna do Congresso apontava para a miséria da seca do sertão paraibano. E, agora, para onde o busto estaria apontando? Seria para a praia mais bonita do Nordeste?...

Mas vamos ao outro busto, o busto do almirante, que deveria estar olhando para o mar, e não de costas. Pensando bem, o almirante tem razão em dar as costas àquele mar, que está cada vez mais poluído. O busto parece querer expulsar os vendilhões do templo, com suas barracas, uma delas vendendo até frutas e comidas. E que dizer das barracas e táxis ali perto estacionados, obstruindo o final de nossa mais importante avenida? Já se viu isso em alguma metrópole que se preze? Já imaginaram a Champs Elysées, de Paris, com o Arco do Triunfo cheio de vendagem?

Mais ainda, já imaginaram aquela decantada e nobre avenida parisiense com seu terminal servindo de palco de tudo que é festança? E haja poluição sonora e mictórios fedorentos espalhados por toda a parte.

Agora, olhando o busto de Epitácio, do outro lado, parece que ele está apontando, não mais para a tragédia da seca, mas para tragédia da poluição em torno do respeitável busto do almirante Tamandaré. E ninguém protestando...

A avenida mais nobre, mais bonita, mais elegante da capital, que desemboca na bela Tambaú, transformada, no seu final, numa bagaceira, num sanitário. E ninguém está vendo isso...
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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