A vida era uma festa

Continuemos espremendo a memória, trazendo ao presente o paraíso de minha infância, aquele sítio lá da Lagoa, com suas fruteiras, seu silêncio, a terra molhada, sem esquecer o canto dos pássaros, o sussurro da brisa, o canto evocativo e triste dos galos, o latido ansioso dos cachorros, assustando-se com a queda das mangas... Ah, as mangas! Era gostoso a gente ouvir, altas horas da noite, as mangas caindo no chão. Mangas de todos os tipos. Rosa, espada, bacuri, do papo-roxo, baronesa, e assim por diante. E embrulhados em nossos lençóis, ficávamos ansiosos que chegasse logo a madrugada, quando, então, víamos o chão coalhado de mangas. E saíamos correndo para apanhá-las. Mais tarde chegavam os compradores de manga.

O sítio tinha seus trabalhadores. O chefe deles, seu Antônio, era ignorante, mas de toda confiança do meu pai. Não bebia e tinha um grande respeito ao seu chefe. Chamava-o de Seu Zezinho. E havia um Vitorino, criatura boníssima, mas que vivia sempre bêbado. Vendia as mangas, na rua, e voltava encachaçado dizendo que as mangas estavam podres...

O bom mesmo era trepar nas árvores, donde a gente via outros sítios. E adorávamos essa bisbilhotice no quintal alheio. Eu e minha irmã Ivone, companheira de infância, passávamos horas nessa distração. Ivone adorava fazer de tabuazinhas bonecas. E eu tinha de lhe fazer companhia, pois sua irmã Iracema, que me destronou da privilegiada posição de caçula, só chegou anos depois.

Havia muitas superstições. Dizia-se que, à meia-noite, aparecia uma mulher, uma alma do outro mundo, debaixo do pé de cajá, Isto me amedrontava. Mas depois desconfiei que a visão daquela alma foi invenção de minha mãe para que fossemos dormir cedo. Antes do sono, recitávamos o “Pai Nosso”. Acontece que toda vez que, na oração, pedíamos o “pão nosso de cada dia”, Ivone dizia:” eu quero pão”. Minha mãe terminou omitindo o pão da prece.

E as assessoras domésticas? Tinha muitas. Maria Benedita, que veio de Alagoa Nova; Zefa, ossuda, que, um dia, meus irmãos mais velhos mostraram-lhe a foto de uma bela artista de cinema, dizendo que era ela e a boba acreditou.

Como já dissemos, o sítio ficava de frente para a Lagoa, onde, à sombra de suas frondosas árvores, os músicos da Banda da Polícia Militar ensaiavam seus instrumentos. Babás com crianças tornavam aquele ambiente festivo.

Voltando às assombrações, havia o “Casaca de Couro”, um bicho horroroso, que, altas horas da noite, pulava nas costas das pessoas, mordendo-as. E eu me pelava de medo, só em pensar.

No sítio, as refeições eram rigorosamente disciplinadas. Café, almoço e ceia. Todos deveriam estar sentados, aguardando a chegada dos pais. O caçula gozava do privilégio de se sentar ao lado dos pais. O filho mais velho também. E o que é que se comia na ceia? Batata, macaxeira, cuscuz, inhame, que vinham do sítio, das plantações do meu pai.

E como o sítio era gostoso nos dias de domingo, quando recebíamos a visita de minha vó Quininha, diminutivo de Joaquina. Ela usava um vestido branco que cheirava a alfazema. Era um amor de vó. Irônica, perspicaz, inteligentíssima. Casou-se aos 13 anos com um comerciante de couros, muito inteligente, de nome Vicente, que, nas horas de descanso, tocava clarinete. Muitas vezes trabalhava com a jovem esposa sentada em sua perna..

Uma visita muito honrosa nesses domingos era a de um amigo de meu pai, muito gordo e maçon. Mal chegava, ia logo gritando: “quero cachaça”. E pedia “cachaça com sal”. Meu pai, que só tomava água de coco, atendia ao pedido do amigo.

Aos domingos, a Lagoa era uma festa. O menino do sítio não cabia em si de contente. Mas não era a lagoa que era uma festa. A vida ali é que era.







Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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