Sutileza e silêncio

O livro é tão pesado que afetou, ligeiramente, a minha coluna, que já não andou muito boa, mas tem melhorado muito graças às caminhadas e outras ginásticas.

Voltando ao livro, comecemos pelo seu visual. A imagem daqueles pés caminhando na areia. E com o apetite de minha curiosidade, fui lendo este “Ciclo vegetal”, do meu amigo e mestre Juca Pontes lançado, outro dia, com merecido sucesso, na Livraria Leitura.

Se o livro é pesado, as pétalas de seus poemas são de uma leveza e de uma beleza que encantam. Têm a sutileza das lágrimas, sutileza de pés caminhando, de folhas se despregando das árvores. Dir-se-ia que o autor escreveu ouvindo, mentalmente, Debussy. Mais de 300 páginas. Nada de orelha. O livro é enriquecido com um texto lúcido, preciso e erudito do Hildeberto Barbosa Filho, nosso crítico maior. E traz pensamentos como este: “O mar sou eu quando sou náufrago”, de Lúcio Lins. Há também figuras de pés caminhando na areia da praia, o que tem muito a ver com o símbolo.

E que dizer do seu conteúdo desse livro tão denso e tão simbólico? As palavras nunca expressam a realidade. Daí a necessidade das meias palavras, das reticências.

Juca Pontes, no final, cita seus numerosos amigos que, decerto, considera uma de suas maiores riquezas. E foi oportuna essa homenagem fraternal. Não devemos esquecer de que somos os nossos amigos.
O crítico Hildeberto, na síntese magnífica, disse tudo sobre a poética de Juca Pontes: “É todo síncope, economia, sugestividade”.

Já que não é possível trazer o oceano para junto de nós, uma simples gota guarda o seu sabor. Assim seria transcrever um de seus poemas.

Aqueles pés que ilustram a capa são de um simbolismo impressionante. Sugerem caminhadas na areia molhada da praia, a ponto de o poeta dizer: “sou eu a areia da praia”...

Juca Pontes é de um saudosismo admirável. Saudosismo nada piegas. Um saudosismo sadio, que reflete um homem de muita paz e de muito amor, cujo olhar vai além do que os olhos vêem. O livro é denso e na contra capa uma visão do mar que não faltam espumas e areia que tanto inspiraram o poeta. Uma beleza de ilustração e de inspiração.
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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