Espírita, maçon e burocrata

Pois é, depois daquela reunião mediúnica, em Alagoa Nova, da leitura da obra de Léon Denis - “O problema do ser, do destino e da dor” - o homem se tornou espírita, e, já que não podia mais ser agricultor, resolveu deixar o Brejo e se mandar para a Capital, que, sem dúvida, lhe daria melhores condições de vida.

Aqui em João Pessoa, ainda achou de comprar um belo sítio, lá no Parque Sólon de Lucena, a popular Lagoa, pois, plantar, estar em contato com a Natureza, era com ele. E foi nesse paraíso que eu, caçula da família, passei minha bela infância, em contato com a terra, com a chuva, com as árvores, com os animais. Um sítio que tinha tudo que era de fruta. E fruta rara como abricó, jenipapo, cacau e assim por diante. O pai adorava o caçula e o caçula adorava o pai, um homem alto, atleta, bonito e de uma mansidão admirável, Mansidão só, não. Bondade.

Agora espírita, haja a promover reuniões mediúnicas na própria casa. Conversava com os espíritos como se fossem gente de carne e osso. E eu menino ainda de calças curtas, ficava sem entender aquele colóquio do mundo de cá com o mundo do além. Meu pai dava conselhos aos espíritos, com uma postura que me encantava.

Apaixonado pela Natureza, o seu sítio dava de tudo. Um dia, me ensinou a aguar uma porção de crótons que enfeitavam a entrada da casa. E à medida que eu ia jogando água nas plantas e estas se agitando com a brisa, ele me dizia: “as plantas estão acenando e agradecendo a água que você lhes está dando”.

A verdade é que um pai nunca se identificou tanto com o filho como este homem, de honestidade ímpar. Sério e sereno, José Augusto Romero terminou me levando para as lições de catecismo kardecista, lá na Federação Espírita, um prédio de uma porta e duas janelas, que ficava na rua Treze de Maio.

Fui o único filho que ele não batizou. E esta história do batismo criou um problema mais adiante, pois, para me casar com a primeira esposa, a família exigia que eu me batizasse na igreja. E agora, José? Depois eu conto como se deu o desfecho.

Voltando ao meu pai, esse ídolo de minha vida, o ex-agricultor terminou burocrata. Sim, ele foi convidado para ser secretário do Departamento Nacional das Obras Contra as Secas - DNOCS. E deu-se muito bem na burocracia. Muito respeitado e admirado, ele foi um exemplo de honestidade, de seriedade e de serenidade.

Como espírita, dirigiu a Federação Espírita Paraibana durante 44 anos. Sempre eleito por aclamação. Sua administração naquela Casa foi um exemplo de bondade e coragem.

Sim, já ia me esquecendo. Ele foi maçon, chegando a Venerável Mestre. A loja maçônica era aquela da antiga Rua Nova, onde há duas esfinges de bronze guarnecendo o prédio. Um dia, ele disse para mim: “Você quer se batizar na Maçonaria? O batismo não é de água, mas de mel”. E meus lábios começaram a se mexer. Mas, essa batismo ficou só no convite...
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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