Foi gigante e pigmeu

Sim, o extraordinário psicanalista Sigmund Freud foi um gigante, na perspicácia, na coragem, na genialidade de haver descoberto o que vivia escondido dentro de nós, tão escondido como aquela parte do iceberg, mergulhada n'água. E que iceberg foi esse, que só veio a ser descoberto no começo do século passado, para espanto dos meios científicos? Refiro-me ao nosso inconsciente. E como foi ele descoberto? Estudando os nossos sonhos. Ora, ora, desde que o mundo é mundo que o homem sonha. E sonha devido ao sono, que lembra uma pessoa morta, um defunto que respira.

Pois bem, até o grande psicanalista, ninguém procurou estudar o fenômeno do sono e, conseqüentemente, o sonho. Dessa análise, desse estudo, Freud chegou à conclusão de que temos dentro de nós um porão, que se chama inconsciente, o tal “id”, que é base para muitos dos nossos sonhos, muitos dos nossos recalques, das nossas frustrações. Mais ainda, Freud chegou à conclusão de que nesse inconsciente funciona a nossa libido, que nada mais é do que a energia sexual. E revelou uma coisa que provocou sérias revoltas na sociedade, mormente, nos meios religiosos. Freud afirmou que a tal libido se manifesta até no recém-nascido ao sugar o seio materno. Mas dizer a verdade ofende a muita gente. Daí os preconceitos que Einstein considerou piores do que uma bomba atômica.

Freud foi o fundador da Psicanálise e teve, a principio como aluno, o famoso suíço Jung, que terminou abandonando o mestre, por discordar de muitas de suas ilações. Se Freud revelou o inconsciente individual, o chamado “id”, Carl Jung foi mais longe com o seu inconsciente coletivo, que guarda lembranças de vidas passadas. Freud era materialista e ateu. Dizia que a religião era um mito, uma ilusão, tal qual Marx, para quem a religião era o ópio do povo.

A verdade é que Freud foi um extraordinário e corajoso descobridor do nosso inconsciente. O seu livro “Interpretação dos sonhos”, lançado no inicio do século passado, teve o efeito de uma bomba. Como disse, desde que o mundo é mundo que o homem sonha, mas só depois de muitos séculos é que veio a estudar esse fenômeno, graças ao genial austríaco.

Nutro por ele uma profunda admiração. Das duas vezes que fui á sua Casa, lá em Viena, não deixei de subir os degraus que os seus pés pisaram. Admirei-lhe a coragem. E saber que ele fazia cooper, à noite, vestido não de calção, mas de roupa de passeio. Ele foi um gigante para muita coisa, mas um pigmeu no que se refere ao fumo. Morreu de câncer bucal. Submeteu-se a muitas cirurgias e nada. O diabo é que as suas fotos aparecem com ele fumando o criminoso charuto. Freud, que descobriu o nosso inconsciente, não foi nada consciente.

Judeu, foi perseguido pelos nazistas, a ponto de ser proibido de sair de sua terra, o que foi conseguido depois de pagar uma grande quantia aos seus inimigos. Livre, foi para Londres, onde morreu. E que tranquilidade a do bairro londrino, onde passou seus últimos dias, aqui na Terra... Estive lá tomado por grande emoção.

Freud, gigante e pigmeu. Não conseguiu dominar o abominável vício...
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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