Uma rua dentro de mim

Quando eu vim de Alagoa Nova, minha terra natal, para viver na capital, foi na Rua Nova, hoje, General Osório, passando a morar numa casa, hoje demolida, e que ficava onde está, hoje, o “Terceirão”. A casa era espaçosa, e o que mais encantou ao menino de quatro anos foram as amplas janelas. E janelas, naquela época, eram o melhor instrumento de comunicação. Ah, as fofocas na janela! A rua era larga, silenciosa e meio mística, com o relógio da Catedral anunciando as horas.
Mas não demorou muito esse primeiro contato com a Rua Nova, que, se não estou enganado, motivou a minha primeira crônica no jornal A União, sob o título “Rua triste”.
Saímos da Rua Nova e fomos morar num sítio, lá na Lagoa. Um sítio que foi para mim um paraíso. Decorridos alguns anos, eis que meu pai vendeu o sítio e veio residir, novamente, na Rua Nova, o que muito também me agradou. Lembrar que menino adora mudança. Nossa casa ficava defronte do Mosteiro de São Bento. Que silêncio naquele mosteiro! Diziam que lá dentro tinha uma caveira. E não é que um menino, meio doido, achou de penetrar naquele misterioso espaço em busca da risonha caveira. Para decepção dos outros, o afoito garoto chegou de mãos vazias...
E valia a pena ficar contemplando a extensão da avenida, com suas casas, grandes janelas e seu silêncio místico. Gente na janela era o que não faltava, principalmente os idosos. Havia quintais, quintais com suas galinhas, fruteiras e, vez por outra, o triste cantar de um galo. Raramente passava um carro. Mas não faltava um pregão. Pregão do homem que vendia fígado, que vendia pitomba e ainda acrescentava: “chora, menino, para comprar pitomba”.
A Rua Nova era plana e arborizada com fícus benjamina ou oitizeiros, não estou bem lembrado. Era lá que estava a sede da Loja Maçônica, num bonito prédio, guarnecido por duas esfinges de pedra. Diziam que lá tinha um bode preto. Mentira. Meu pai era maçon e desejou me batizar lá. O batismo não era com água, como na Igreja Católica, mas com mel. Que gostosura. Mas meu pai terminou não falando mais nisso.
Agora vejam quantas pessoas ilustres eu vi nas janelas contemplando a rua. Vi, e meu pai foi quem me mostrou, o ex-presidente do nosso Estado Camilo de Holanda. O velho tinha uma bela postura. E parecia que estava assistindo a um desfile de soldados, já que ele era general. Vi o historiador, fundador da nossa Academia de Letras, Coriolano de Medeiros. A cabeça bem alva. Vi o escritor De Castro e Silva, o primeiro a escrever sobre o poeta Augusto dos Anjos. Como vêem, as janelas, numa época em que não havia TV, constituíam um meio de sair de casa sem sair.
Não esquecer a bela casa, que ficava junto de uma ladeira e que pertencia ao professor de piano Gazzi de Sá, cuja escola gozava de um grande conceito em nossa terra. Todas as moças da alta sociedade eram suas alunas.
Havia na Rua Nova um belo sobrado, onde, ao que dizem, morou o escritor Virginius da Gama e Melo. Infelizmente o sobrado foi demolido.

 A Rua Nova, depois do sítio da Lagoa, foi meu paraíso urbano. Foi no batente do Mosteiro de São Bento que li toda a coleção do grande Monteiro Lobato. E tanto me empolguei com sua leitura, que esquecia até a horas das refeições. O silêncio da rua propiciava a leitura. Silêncio, vez por outra, interrompido pelo sino da Catedral...
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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