Ah, minhas tias!...

Tias, tive muitas, cada uma com o seu modo de ser. Tias por parte de mãe, tias por parte de pai. Desejo escrever sobre as primeiras, com quem tive maior convivência, exceto tia Clarice, bonita de morrer. Não só bonita como alegre. Vivia com o sorriso nos lábios. E como o sorriso rejuvenesce a pessoa! Quer ficar velho? Vá ao espelho e faça uma carranca ou cultive o mau humor. Tia Clarice tinha o rosto iluminado, porquanto o sorriso é luz. E eu fico pensando, onde estará tia Clarice com o seu sorriso?...

Já tia Olívia era de uma tristeza de doer. Dir-se-ia que ela era o crepúsculo e Tia Clarice a alvorada. Mas não é das tias paternas que eu desejo escrever, e sim das maternas, com quem muito aprendi, pois quase todas elas eram professoras da Escola Normal, educandário que valia por uma universidade, e ficava ali na Praça João Pessoa, onde hoje funciona o Tribunal de Justiça.

Vamos enumerá-las: tia Autinha, muito culta e loura, não foi feliz no casamento e terminou se separando. E isto muito me entristeceu. Tinha uma postura que encantava. Educada, fina, muito limpa e de fala mansa. Foi ela quem, no meu aniversário, que ocorre no mês de São João, me presenteou com um livro de História, ao invés de uma caixa de traque de chumbo. Seu nome todo era Auta de Luna Freire. Que mulher extraordinária! Vestia-se com muita sobriedade e elegância.

Mas vamos a outra tia do lado materno, que se chamava Anília, cujo marido, Henrique, era muito mais moço que ela. E tia Anília tratava-o como filho. Eis aí a vantagem de ser mais moço que a mulher. E essa minha tia Anília foi a pessoa mais otimista que já vi. Foi ela quem me ensinou datilografia, com uma paciência e uma boa vontade admiráveis. E como esse “computador” antigo me serviu.

Agora vamos às outras. E me vem logo à memória a mais alegre de todas, que se chamava Nautília. Era pequena, branquinha, rechonchuda e muito alegre. Enamorou-se de um italiano Vitório, que cantava e encantava que era uma beleza com o seu otimismo e voz de tenor. Ele tratava a mulher como se fosse uma menina.

E eis que me vem à lembrança tia Ninália, muito discreta, casada com João Batista Barbosa, economista e profundo admirador de Carlos Prestes, que quando vinha a esta capital se hospedava em sua casa. Tia Ninália era calada, mas muito irônica, chegando, certa vez, na praia, a sugerir ao meu pai José Augusto, espírita até os ossos, que andasse sobre as ondas, como fez Jesus.

E vou terminando, sem esquecer que minhas tias quando solteiras não perdiam as retretas da Praça João Pessoa, pois não queriam ficar no caritó, isto é, solteironas. E as retretas eram muito bem frequentadas.

Houve outras tias admiráveis, a exemplo de Tia Alzira, casada com o major Vicente Jansen, que morou a maior parte de sua vida na cidade de Patos. Um casal com muito amor. E por último, Tia Totonha, que passou a vida toda no Araçá, localidade perto de Itabaiana, se não me engano.


Minhas tias... Como ainda as guardo na memória, cada uma com o seu destino. Destinos tão diferentes...
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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