Eles não eram peagadês

Eles não eram peagadês. Mas, como sabiam! Tinham cultura e compostura. Impunham muito respeito, não só pelo saber, mas pele ética. Estou me referindo a um período áureo de nosso ensino secundário que me deixou agradáveis lembranças. Começo com Carlos Coelho, professor de História do Brasil, disciplina que conhecia a fundo. Duvido que algum aluno dormisse em suas aulas. Que humor na narração dos fatos! No que alude á nossa independência, sorrindo, ele dizia que segundo informavam, o nosso Dom Pedro I, depois do grito “Independência ou morte!”, que inspirou um quadro do artista Pedro Américo, sentiu uma forte dor de barriga e teve de se aliviar no matagal perto. O professor Mauro Coelho dizia isso, sorrindo. Ele sustentava o sorriso com um lenço.
Suas preleções didáticas e eruditas, repassadas de humor , nos fascinavam. E quando tocava a sineta, saíamos da sala de aula meio tristes. Não há coisa melhor do que um bom professor.
Vamos a outro mestre, Dr. Otacílio de Albuquerque, que ensinava matemática. Excelente mestre dos números. Difícil disciplina que ele sabia torná-la accessível, por incrível que pareça. E ele falava pausadamente.
Mas depois veio o Monsenhor Odilon Coutinho, cuja didática não me agradou. E vamos ao nosso professor de Francês, Celestin Mausac, com suas versões e tradições. Aprendi pouco com o mestre. E o inglês, quem nos ensinou? Não foi outro senão o professor Álvaro de Carvalho, ex-presidente do nosso Estado, substituindo João Pessoa e que faz parte da galeria dos patronos de Academia Paraibana de Letras. Álvaro de Carvalho era professor de inglês e de otimismo. Sempre revelava aos alunos a sua origem humilde. Seu pai foi barbeiro. Procurou sempre estimular os alunos e conscientizá-los da importância do tempo. Criminoso era o que matava o tempo, dizia ele. Mas o que mais me encantava em Álvaro de Carvalho era sua postura. Uma postura de dignidade. E ei-lo de carteira e carteira, perguntando aos alunos: ”What ‘s this? Era um homem íntegro, de muita dignidade. Impunha um enorme respeito. Impecável no vestir.
Outro professor de História, foi o Aníbal Moura. Sempre bem humorado, vez por outra saía da lição para criticar algo. Ele não quis acreditar que o poeta Carlos Drummond fosse o autor do poema que falava de uma pedra no meio do caminho. Aliás, o famoso crítico Agripino Grieco disse que só lamentava que não houvesse alguém para atirar aquela pedra no autor. Lembrar que o bom-humor faz parte de uma boa didática. Daí o professor sair, de vez em quando, do tema da lição.
O professor Aníbal estava sempre com uma pastilha Valda na boca para aliviar a garganta.
Que tal encerrar aqui a crônica? Sim, mas antes falemos ligeiramente do grande professor Luiz Gonzaga Burity, pai do nosso Tarcisio, que foi governador. Sereno, sério e, sobretudo, culto, o professor Burity pai fez a gente gostar de Latim. Como sabia ilustrar a disciplina que ensinava... E vamos encerrar a crônica e as aulas.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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