Zé Leal, que legal!

Pois é, deu-me vontade de escrever sobre meu tio torto, José Leal, ou Zé Leal para os mais íntimos. Um grande homem, que não tinha nada de torto. Pelo contrário, o homem era muito espigado. Parece que estou o vendo no seu trânsito diário em direção ao jornal O Norte, mas antes de ter dado um dedo de prosa na Associação Paraibana de Imprensa, que ele fundou e que era a sua segunda casa.
José Leal rima com jornal e este foi sua cachaça a vida inteira. Jornalista sem diploma, seja de Mestre, seja de Doutorado, muito menos de pós-doutorado...
Sua grande universidade foi a vida. Mas antes de vir lá de Alagoa Nova para cá, José Leal trabalhou na conservação de estradas. E foi nesse trabalho que ele foi soterrado com a queda de uma barreira. Deram-lhe como morto. E quando retiraram a terra que o cobria, eis que o encontraram totalmente sujo, mas sorrindo. Ninguém quis acreditar no que via. Assim me contaram.
Mas deixemos o trabalhador de estradas e voltemos a falar sobre o jornalista que aprendeu jornalismo sem se ensinar, como diria o poeta Ascenso Ferreira.
José Leal não foi apenas meu tio, e sim meu amigo. Davam-nos muito bem, Sabendo do meu gosto pela música erudita, convidou-me, justamente com Gonzaga Rodrigues, para organizar, naquela casa, a sua A.P.I., uma discoteca com discos de Bach, Beethoven, Chopin e vários outros gênios, Os discos eram pesados e grandes. A vitrola era enorme e movida a corda. Não sei se Gonzaga se lembra disso. Só sei que a nova discoteca veio modernizar aquela casa.
José Leal foi um homem de uma tenacidade admirável. Se não me engano (me ajuda, Wilis Leal!) ele ignorava o que era medo. Outra coisa: não sabia o que era ociosidade. Levou toda a vida trabalhando. Enquanto seus dedos dançavam no teclado da Remington, o cigarro ia enchendo a sala de fumaça. José Leal foi um fumante inveterado. Até andando a caminho de casa, lá para as bandas de Trincheiras, o cigarro não saía de sua boca. Outra coisa: nada o perturbava. Podiam jogar uma bomba aos seus pés, que ele não se incomodava. Parecia que tinha nervos de aço, tal era a sua serenidade. E José leal conhecia bem a história da Paraíba. Escreveu bons livros sobre essa matéria.
Meu tio José Leal... Fui vê-lo no hospital. Estava arquejante. Calado, o olhar fixo no teto. Tossia com muita dificuldade Os pulmões, completamente avariados em conseqüência do enfisema. O silêncio dominava a sala. Que diferença do burburinho agitado da sala da redação... Por fim, ele olhou para mim e cochichou: “Carlos, só levo um desgosto da vida: o de ter fumado. “E virou o rosto para a parede. Seu pulmão estava profundamente comprometido. Não havia mais cura... Ainda bem que eu, que fui fumante, deixei o vício em tempo.

 Meu tio José Leal, tão forte para tantas coisas, mas se deixou dominar pelo venenoso e fedorento vício... Assim mesmo não podemos deixar de dizer: Zé Leal, que legal!...  
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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